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Um livro por semana
Um livro por semana
Um livro, um crime, uma vida

 

Sou um crime

 

“Cresci na África do Sul durante o apartheid, um facto algo inconveniente porque fui criado numa família mista, sendo que o mestiço era eu. A minha mãe, Patricia Nombuyiselo Noah, é negra. O meu pai, Robert, é branco. Suíço-alemão, para ser mais exacto, e estes são invariavelmente brancos. Durante o apartheid, um dos piores crimes que se podia cometer era ter relações sexuais com uma pessoa de outra raça. Escusado será dizer: os meus pais cometeram esse crime. “

 

Lei da Imoralidade

Lei de Imoralidade de 1927 - (Lei nº 5 de 1927).

 

“Em qualquer sociedade baseada no racismo institucionalizado, a miscigenação desafia o sistema, apontando-o como injusto insustentável e incoerente. A miscigenação prova que as raças podem misturar-se (e, em muitos casos, querem misturar-se). Visto que um mestiço personifica essa falha na lógica do sistema, a mistura de raças torna-se um crime pior do que a traição.” 

 

 The tonight show

 

Trevor Noah guionista, humorista e apresentador de televisão em programas na  África do Sul, até se distinguir na stand-up comedy e alcançar sucesso internacional. É atualmente apresentador do The Daily Show.

No seu livro Born a Crime  (ed. Spiegel & Grau) conta como foi nascer no apartheid e crescer na África do Sul.

 

 

 

Foi considerado pelo jornal The New York Times e pela revista Esquire um dos melhores livros publicados em 2016.

Em 2017, Trevor Noah venceu o prémio THURBER PRIZE, na categoria The Thurber Prize for American Humor.

Em 2018, a revista Time elegeu Trevor Noah como uma das cem pessoas mais influentes no mundo.

 

Oprah Winfrey conversa com Trevor Noah acerca deste livro.

 

 

Em Portugal, Sou Um Crime – Nascer e Crescer no Apartheid – foi editado pela editora Tinta da China em 2018. Relata “o percurso de Trevor Noah no mundo onde nem deveria existir, e onde se sentia deslocado quer na zona dos brancos quer nos subúrbios dos negros.”

“Chegada a altura de escolher o meu nome, decidiu-se por Trevor, um nome sem qualquer significado na África do Sul e sem precedente na minha família. Não é sequer um nome bíblico. É apenas um nome. A minha mãe não queria ver o filho preso a qualquer destino. Queria que eu fosse livre para ir onde quisesse, para fazer o que me apetecesse, para ser quem entendesse. E deu-me também as ferramentas para que assim fosse. Ensinou-me inglês como primeira língua. Lia para mim constantemente. O primeiro livro que aprendi a ler foi o livro. A Bíblia. Era também na igreja que arranjávamos a maior parte dos livros. A minha mãe levava para casa caixas cheias de livros, doados por brancos: livros ilustrados, pequenos romances juvenis, quaisquer livros a que conseguisse deitar a mão. Depois assinou uma subscrição e recebíamos os livros pelo correio. (…)
Os meus livros eram os meus bens mais preciosos. Tinha uma estante para eles e orgulhava-me muito dela. Adorava os meus livros e mantinha-os em perfeito estado. Lia-os uma e outra vez, mas não dobrava as folhas nem partia as lombadas. Estimava cada um deles. À medida que fui crescendo, comecei a comprar os meus próprios livros. Adorava literatura fantástica, perder-me em mundos que não existiam.”

 

Pequeno Trevor Noah

 

“A minha mãe e eu tínhamos uma relação estilo Tom e Jerry. Ela era a disciplinadora severa e eu portava-me mal como tudo.(…)
Caso perguntem à minha mãe se alguma vez pensou nas consequências de ter um filho mestiço em pleno apartheid, ela dirá que não. Meteu uma coisa na cabeça, arranjou maneira de a fazer e fê-la. É preciso um elevado grau de determinação para levar a cabo algo assim, e a minha mãe tinha-a. Se pararmos para pensar nas consequências, nunca faremos nada. Não obstante, era um acto temerário, insano. Um milhão de coisas tiveram de correr bem para conseguirmos passar por entre os pingos da chuva durante tanto tempo.”

 

Apartheid

 

“Uma das coisas boas que as línguas têm é que podemos, com a mesma facilidade, usá-las para fazer o oposto: convencer as pessoas de que são iguais. O racismo ensina-nos que somos diferentes devido à cor da nossa pele, mas, uma vez que o racismo é estupido, é fácil enganá-lo. Se formos racistas e nos cruzarmos com alguém que não se parece connosco, o facto de essa pessoa não saber falar como nós reforça os nossos preconceitos raciais: a pessoa é diferente, é menos inteligente. Um cientista brilhante pode atravessar a fronteira mexicana para viver nos Estados Unidos, mas, se falar um inglês macarrónico, as pessoas dirão:
- Ei, não confio neste sujeito.
- Mas ele é cientista.
- Em ciência mexicana, talvez. Não confio nele.
Contudo, se a pessoa que não se parece connosco falar como nós, o nosso cérebro entra em curto-circuito, porque o programa racista que nos foi incutido não possui essas instruções no seu código. “ Espera lá”, diz o nosso cérebro, “ o código racista diz que, se ele não se parece comigo, não é como eu; mas o código linguístico diz que, se fala como eu … então… é como seu? Há aqui qualquer coisa que não está bem. Não estou a entender isto.” “

 

“Trevor Noah: o ódio transforma o amor num crime”, afirma Mamadou Ba, no Jornal Público

 

“Sou Um Crime”, de Trevor Noah, e a arte de saber rir de nós mesmos “ – leia o artigo na íntegra em Comunidade, Cultura e Arte.

 

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