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Um livro por semana
Um livro por semana
Um livro branco. História de uma obsessão.

 

A Rota da Porcelana

 

“Estou na China. Estou a tentar atravessar uma rua em Jingdezhen, na província de  Jianxi, a capital da porcelana, a mítica Ur onde tudo começa; chaminés de fornos que trabalham  toda a noite, a cidade “ como uma fornalha  com muitos respiradouros de chamas”, fábricas para a corte imperial, o norte na prega das montanhas  para onde aponta a minha bússola.  É o sítio para onde os imperadores  mandavam emissários  com encomendas para o meu palácio-tanques de porcelana para carpas, incrivelmente altos, taças de pé para rituais, dezenas de milhares de peças para o serviço da sua casa.  (…) É a cidade  dos segredos, mil anos de saberes, cinquenta gerações a escavar, a limpar e a combinar terra branca, a fazer e a estudar porcelana, cidade de oficinas, oleiros, vidradores, decoradores, mercadores, falsários  e espiões. (…)
Não tenho mapas. Tenho as minhas fotocópias agrafadas das cartas do Père d’ Entrecolles, o padre jesuíta francês que aqui viveu há trezentos anos e deixou descrições vividas  de como era feita a porcelana. Trouxe as  cartas  a pensar que ele me poderia servir de guia. Agora parece-me um gesto um tanto afetado e nada prático.”

 

 

A Rota da Porcelana (Sextante Editora, 2016) escrito por Edmund de Waal fala-nos da sua obsessão: a delicada, preciosa e cintilante porcelana. O autor e artista conduz o leitor numa longa viagem ao “ouro branco” que começa na  China, na cidade Jingdezhen, mas também passa por Veneza, Versailles, Dublin, Dresden, os Montes Apalaches da Carolina do Sul e as colinas da Cornualha.

Edmund de Waal é oleiro, escritor, artista, curador e viajante. Conheça mais na página pessoal do artista e escritor e veja a entrevista neste vídeo.

 

 

 

“O branco  é também a minha história. Desde a minha primeira peça.
Tinha cinco anos. Às quartas-feiras, o meu pai frequentava uma aula noturna de cerâmica a Escola de Arte local, e levava os meus dois irmãos mais velhos com ele.
As crianças mais pequenas podiam estampar t-shirts, pintar telas desenxabidas, fazer desenho  à vista ( uma senhora diante duma cortina de veludo vermelho, com uma planta  num pote de latão), ou descer para a cave  e fazer barros. Eu só  queria descer as escadas. Ao fim de uma hora havia um intervalo e davam-nos  um copo de Ribena e um biscoito de chocolate.
Era um sítio poeirento, o barro enche tudo de pó. Alguém estava a modelar um vaso  pequeno em argila branca, amparando-o  nas mãos e fazendo-o rodar ritmicamente.
Sentei-me à roda eléctica, com  uma grande bola de barro castanho. Tinham-me posto uma avental de plástico encarnado. A roda era  muito grande, com um interruptor  para ligar e desligar e um pesado pedal com que se controlava a velocidade da rotação.“

 

 

“Esta porcelana é “ azul como o céu, brilhante como um espelho, fina como papel, e sonora  como uma pedra musical. (…) Quanto a cores, a verde-pálida é considerada a melhor, seguida pela branca , e a cinza em terceiro lugar. “

“Os jarros  têm um bico bem definido, lançado para a frente como se a água estivesse já em movimento, e o rebordo evoca a crista denteada de uma montanha.”

 

 

Criado  como um 'espaço para sentar, ler e ser', a biblioteca do exílio -  library of exile - é uma instalação do artista e escritor britânico Edmund de Waal, que abriga mais de 2.000 livros traduzidos, escritos por autores exilados que pode ser vista em  Museu Britânico  entre 7 Agosto de 2020 a 12 Janeiro  2021.

“Na inauguração perguntaram: Por que faz coisas brancas? A mesma pergunta que me faziam em criança. Continua a ser uma boa perguntas. (…) E eu repondo que o branco é uma maneira de começar de novo. Não é uma questão de bom gosto, fazer vasos brancos não tem nada a ver  com o bom gosto, fazer porcelana é uma  maneira  de começar de novo, de abrir um caminho próprio, uma estrada e um atalho para nós mesmos.”

 

 

The British Museum | Edmund de Waal Library of Exile

 

“Mudei-me finalmente para a minha fábrica (…). No andar  de cima, o antigo andar dos escritórios, tenho o meu espaço de escrita e livros.
Na minha parede  branca, tenho os meus textos sobre o branco. Muita poesia, algumas boas passagens  de Wedgwood, folhas  problemáticas e pomposas de Goethe  sobre a cor e aluz (…) E tenho Herman Melville, Moby Dick, capítulo 42. “ A brancura  da baleia” “ Em muitos elementos  da natureza a brancura refina e realça a aparência, como se lhes conferisse uma virtude especial própria, caso dos mármores, lacas e pérolas.
E depois aparece aquela frase extraordinária, “ a sua qualidade indefinível faz que a ideia de brancura, dissociada de imagens mais agradáveis e aplicada a qualquer  objeto já por si  terrível, multiplique esse terror até ao insuportável” A frase estende-se pela parede, sobrepondo-se a tudo- A ideia da brancura está sublinhada várias vezes.”

 

 

 Elective Affinities: Edmund de Waal at The Frick Collection

 

“O que é o branco? É a cor do luto, porque engloba em si todas as cores. O luto é também a refração infindável que nos quebra em pedaços, fragmentos.”

 

 

The Artist Project: Edmund de Waal

 

O que diz a Imprensa a propósito do livro A Rota da Porcelana

“A Rota da Porcelana não é apenas um livro de histórias de como as peças de porcelana atravessaram os séculos e o mundo, é ao mesmo tempo uma reflexão crítica sobre o trabalho artístico do oleiro, sobre a memória, a identidade e a escrita.”

 Jornal Público 

«A Rota da Porcelana tem uma beleza algo esquiva, algo esquinada, menos imediata, mais difícil de assimilar. Faz lembrar uma peça que sai com irregularidades da roda do oleiro, mas em que se sente, tanto nas suas curvas como nas suas arestas, a marca nítida das mãos que a fizeram

Jornal Expresso 

Edmund de Waal, oleiro e ceramista há 25 anos, com obra patente em museus e galerias, é também um narrador virtuoso: molda relatos híbridos, elegantes, atmosféricos, com minúcias e requintes, assentes na experiência pessoal, mas atravessados por erudição e espiritualidade. E lê-lo é uma viagem sem mapa, próxima do maravilhamento.”

Revista Visão

 

Leia o início do livro A Rota da Porcelana – aqui.

 

José Riço Direitinho a propósito do livro A Rota da Porcelana diz-nos que “O oleiro Edmund de Waal leva o leitor a conhecer a cartografia da argila branca que dá origem à porcelana. Um livro que é muito mais do que as histórias de peças que atravessaram os séculos e o mundo. “

Leia o artigo completo no Jornal Público.

 

Outros livros de Edmund de Waal

 A lebre dos olhos de âmbar   Library of exile

 Gouthiere's candelabras    Japanese Netsuke