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Um livro infernal
20.fevereiro.2021

 

Coração de trevas

 

“A ociosidade própria  de um passageiro, o meu isolamento no meio de todos aqueles  homens com os quais  não tinha afinidades, o mar untuoso e lânguido, a tétrica  uniformidade da costa, tudo isso parecia manter-me alheado da realidade das coisas, preso na teia de uma alucinação lúgubre e insensata. A voz da ressaca, ouvida de vez em quando, era um prazer real, como uma palavra fraterna. Era uma coisa natural, que tinha fundamento, que fazia sentido, De quando em vez, um barco vindo da costa proporcionava um contacto momentâneo com a realidade. Eram impulsionados a remas por negros. Via-se de longe o branco dos seus olhos a luzir. Gritavam, cantavam; os corpos escorriam suor; os rostos lembravam máscaras grotescas; mas aqueles  sujeitos tinham, osso,músculo, um vigor selvagem, uma intensa energia de movimentos, que era tão natural e autêntica  como a espuma da rebentação ao longo da sua costa.  Não precisavam de um pretexto para ali estarem. Era reconfortante olhar para eles. “

in Coração de Trevas  (Relógio D´Água, 2012)

 

 Joseph Conrad

 

“Joseph Conrad nasceu na Ucrânia a 3 de dezembro de 1857, filho de pais polacos, exilados devido a atividades políticas.  Conrad ficou órfão de pai aos onze anos, tendo sido deixado ao cuidado de um tio materno que exerceu grande influencia sobre ele.
A partir de 1874, Conrad,  então a viver em Marselha, iniciou a sua aprendizagem como marinheiro, tendo ingressado na Marinha Mercante Britânica e adotado a nacionalidade inglesa 1886.
Depois de publicado o seu primeiro romance, Almayer´s Folly, em 1895, Conrad abandonou a vida de marinheiro. Embora os livros sobre temas marítimos sejam numerosos  e exista a tendência para o imaginar sempre a bordo de um veleiro, a verdade é que passou os últimos  trinta anos da sua vida em terra, numa sedentária vida de escritor, no condado de Kent.
Conrad  era conhecido por dois aspetos  contraditórios do seu  caráter. Era ao mesmo tempo irritável e amável. Todos os que conheceram afirmavam também que era um homem de grande ironia.
Usava um monóculo, não gostava de poesia, exceto dos versos do seu amigo Arthur Symons e talvez Keats. Destestava Dostoievski por ser russo e escrever romances  que lhe pareciam confusos. Era um grande leitor, sendo Flaubert e Maupassant os seus  autores favoritos.
Durante muitos anos, Conrad atravessou dificuldades financeiras e sentiu a incompreensão dos críticos e a indiferença dos leitores. O livro que o tornou conhecimento foi Chance, publicado em 1913. Nos dez anos que se seguiram tornou-se um dos mais reconhecidos autores de língua inglesa.
Conrad casou-se aos 38 anos, nunca deixando  de oferecer  um presente à sua mulher cada vez que acabava um dos seus livros. Morreu subitamente a 3 de agosto de 1924, na sua casa em Kent, na Grã-Bretanha. Sentira-se mal no dia anterior, mas nada deixava adivinhar a iminência da morte.
Tinha sessenta e seis anos e dele se disse que cumpriu três vidas, a de polaco, a de marinheiro e a de escritor. “ (Editora  Relógio D’Água, 2012)          

 

   

The Secret Polish History of Joseph Conrad

 

 

“A chalupa Nellie rodou em torno da âncora sem um bulir das velas  e imobilizou-se. A maré enchia, o vento quase não soprava,e, sendo o nosso rumo rio abaixo, só nos restava esperar pelo refluxo da maré. O troço final do Tamisa estendia-se diante de nós  como se fosse a embocadura  de uma via aquática interminável. Ao largo, mar e céu  fundiam-se sem uma sutura, e no espaço luminoso as velas crestadas  dos batelões que subiam o rio ao sabor da maré  pareciam imobilizadas  em cachos rubros de telas pontiagudas, com cintilações de verniz. Um véu  de neblina repousava sobre as margens baixas, que corriam para o mar numa planura a perder de vista. O ar sobre Gravesend estava  escuro, e mais atrás a quietude parecia ensimesmada  numa lúgubre caligem, cismando, inerte, sobre a maior e mais ilustre cidade do mundo.
O Diretor das Companhias era o nosso capitão e anfitrião. Contemplávamos os quatro as suas costas afetuosamente, enquanto ele, imóvel à proa, olhava na direção  do mar.“

in Coração de Trevas, (Relógio D´Água, 2012)

 

 

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"Não há referência a tempo histórico. É como se o livro não fosse marcado pelo tempo e por isso lhe sobrevive", afirma Pedro Adão e Silva, professor e sociólogo, sobre o livro Coração de Trevas.

 

 

“«Até ao derradeiro  instante», afirmei, vacilante. «Ouvi as suas últimas palavras…» Calei-me, aterrorizado.
«Repita-as», murmurou em tom pesaroso. «Quero… quero qualquer coisa, qualquer coisa com que viver.»
Pouco faltou para lhe gritar: «Então não as ouve?» O escuro que nos envolvia repetia-as  num cicio constante, num cicio que parecia inflar-se, ameaçador, como o primeiro cicio de um vendaval que se levanta. «Um horror! Um horror!»
«A sua última palavra, para que com ela eu viva», insistiu. «Não compreende que eu o amava, o amava, o amava!»" in Coração de Trevas (Relógio D'Água, 2012)

 

 Coração das trevas

 

 

“Um romance  assombroso que nos mergulha nas profundezas da sela africana e do turvo coração humano.  Kurtz resume-o na perfeição: “O horror! O horror! “ Aqui levanta-se o véu do inferno colonial, dissecando-se os limites da experiência humana. O que é ser selvagem? Pode a literatura, a narrativa, a linguagem, a descrição, a força da metáfora sugerir e aprisionar  o que é indizível e convulso há na experiência  espiritual e física do estado selvagem? Pode! Conrad e Coração das Trevas podem.
Marlow, um marinheiro  experiente, parte, num barco a vapor, em busca do Sr. Kurtz, um enigmático  e enlouquecido comerciante de marfim, em direcção ao continente africano. Nesta jornada física e psicologica, rio Congo acima, entre cenas de tortura , crueldade e escravidão, Marlow  questiona e reflecte sobre questões e valores da essência humana e civilizacional, o seu lado mais obscuro onde tudo é escuridão ou mito.
Um legado do século XX, numa prosa inesquecível por ser perturbadoramente viciante e claustrofóbica.“

in Coração das Trevas (Editora Guerra e Paz2017) 

 

   

Heart of Darkness by Joseph Conrad // animated book summary

 


O  Coração de Trevas é  uma referência na literatura mundial,  tem sido inspirador na ópera, no cinema, na música e na rádio, numa transmissão da CBS Radio em 6 de novembro de 1938, como parte de sua série, The Mercury Theatre on the Air, por Orson Welles.
No entanto, a adaptação mais famosa foi feita por Francis Ford Coppola, no filme Apocalyse Now (1979)  que transfere a narrativa do colonismo africano para a guerra do Vietname.

 

Apocalypse Now - The Doors, The End (1979)

 

São muitas, e muito variadas, as transposições da escrita de Joseph Conrad para o cinema — Apocalypse Now é, obviamente, uma referência incontornável, mas importa não esquecer alguns títulos admiráveis como Lord Jim.  Sob o signo de Joseph Conrad, é uma homenagem da RTP ao escritor e aos filmes inspirados nos seus livros.

 

 

“Bastante mais terrível [que o Inferno de Dante] é o de Coração de Trevas, o rio  de África que o capitão Marlow sobe, entre  margens de ruínas e de selvas e que pode muito bem ser uma projeção do abominável Kurtz, que é a meta. Em 1889, Teodor Josef Konrad Korzeniowski subiu o Congo até Stanley Falls; em 1902, Joseph Conrad, hoje célebre, publicou em Londres Coração de Trevas talvez o mais intenso dos contos elaborado pela imaginação.“ – afimou Jorge Luis Borges

 

 

 Coração de trevas

 Coração de Trevas adaptado por Peter Kuper

 

 

Artistas novaiorquinos  ilustram O Coração das Trevas, leia o artigo de Chris Hewitt.

 

O jornal The Guardian dedica um artigo ao romancista Joseph Conrad.

 

Heart of Darkness 

 Heart of Darkness  -  Coração das Trevas - foi originalmente publicado como uma história de três partes pela revista Blackwood

 

 

 Heart of Darkness

 

 

Outros livros de Joseph Conrad:

Lord Jim O negro do narciso e outras histórias Tufão Gaspar Ruiz

Linha de sombra O companheiro secreto O negro do narciso O agente secreto

Histórias aquáticas O duelo Vitória Freya das sete ilhas

O naufrágio do Titanic Histórias inquietas Nostromo O regresso

  

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