Um livro por semana
Um livro por semana
Um livro, uma imagem verbalizada
14.novembro.2020

 

Os anos

 

“É uma fotografia sépia, oval, colada  no interior de um cartão dobrado com uma cercadura dourada, protegida com uma folha de papel gravado, transparente. Em baixo, Photo-Moderne, Ridel, Lillebonne (s.Inf.re).Tel.80. Um bebé gordo, com  boca de quem está a fazer birra, cabelo castanho a formar um caracol no alto da cabeça, sentado meio nu sobre uma almofada em cima de uma mesa de madeira trabalhada. O cenário com nuvens, o florão da mesa, a camisa bordada, levantada na barriga – a mão do bebé a tapar o sexo -, a alça do ombro descaída sobre o braço rechonchudo parecem querer representar um cupido ou anjinho  saído de uma pintura.  Cada membro da família deve ter recebido uma cópia e tentado perceber  imediatamente  com que lado da familia se parecia a criança. Neste conjunto de arquivos familiares – que deve datar de 1941 – é impossível não se reparar na encenação ritualizada do modo pequeno-burguês de entrar no mundo.“

 

Os Anos, de Annie Ernaux (Livros do Brasil, 2020) é uma narrativa que parte de fotografias de família, para nos falar da vida da autora. Tudo começa com uma “peça do arquivo familiar”, uma fotografia de um “bebé gordo”, provavelmente tirada em 1941. A narradora passa pela infância, adolescência e idade adulta: o casamento, os filhos, os  estudos, os empregos, a docência, a sua condição de filha e mãe … enfim, uma vida.

O livro  parte da imagem, do poder das imagens, de como as imagem se quer verbalizar.

A leitura de Os Anos convida o leitor a entrar na vida da autora, da sua intimidade, dos seus gestos, sorrisos e movimentos corporais, das fotos de família, da convivência social, mas também de um país – a França.

 

 Annie Ernaux

 

“Annie Ernaux nasceu em Lillebonne, na Normandia, em 1940, e estudou nas universidades de Rouen e de Bordéus, sendo formada em Letras Modernas. É atualmente uma das vozes mais importantes da literatura francesa, destacando-se por uma escrita onde se fundem a autobiografia e a sociologia, a memória e a história dos eventos recentes. Galardoada com o Prémio de Língua Francesa (2008), o Prémio Marguerite Yourcenar (2017) e o Prémio Formentor de las Letras (2019) pelo conjunto da sua obra, destacam-se os seus livros Um Lugar ao Sol (1984), vencedor do Prémio Renaudot, e Os Anos (2008), vencedor do Prémio Marguerite Duras e finalista do Prémio Man Booker Internacional (2019). “(in Wook)

 

Annie Ernaux fala sobre os seus livros. 

 

“Apanhados pelo tempo infinitamente lento dos estudos, o pequeno número de jovens que tinha a sorte de os poder continuar, com a campainha ritmada  das horas de aulas, o retomar  das composições trimestrais, as explicações intermináveis  das peças  Cinna e Ifigénia, a tradução  do Pro Milone,  tinha a sensação de  que nada de novo acontecia. Anotávamos frases de escritores sobre a vida, tendo descoberto o prazer de pensar através de fórmulas brilhantes, existir é beber não porque se tenha sede.  O sentimento de absurdo e a náusea invadiam-nos. o corpo voluptuoso da adolescência reencontrava no existencialismo o ser “em excesso”. Colávamos em folhas de dossiê as fotos de Brigitte Bardot no filme E Deus Criou a Mulher, na escola gravávamos na madeira da secretária as iniciais de James Dean. Copiávamos os poemas de Prévert, as canções de Brassens, Je suis un voyou e La première fille, proibidas na rádio. Líamos às escondidas Bom dia, Tristeza e os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. O campo dos desejos e das interdições tornava-se imenso. Vislumbrava-se a possibilidade de um mundo sem pecado.  Os adultos viam-nos como seres desmoralizados por causa dos novos escritores e por já não querermos respeitar nada.“

 

Lecture, Les années d'Annie Ernaux

 

“A cada instante, a par daquilo  que as pessoas  consideraram natural que se faça  e se diga, a par do que se julga  certo  pensar, quer seja através dos livros,  dos cartazes no metro  ou de histórias engraçadas, existem  também  todas as coisas sobre as quais a sociedade  passa em silêncio sem ter consciencia disso, votando a um mal-estar solitário todas e todos aqueles que se apercebem dessas coisas sem as poderem nomear. Silêncio que  um dia se quebra, de repente  ou a pouco e pouco, e  então as palavra emergem  sobre as coisas , monstrando-se, enquanto  por baixo  outros silêncios começam a tomar forma.”

 

Annie Ernaux

 

“Estendendo-se por um período que vai de 1941 a 2006, em Os Anos conta-se uma história que é simultaneamente coletiva e pessoal, transversal e intimista, de sessenta anos de vida de um país e da vida de uma mulher. Através de pequenos fragmentos narrativos, por meio da relação entre fotografias, canções, filmes, objetos ou eventos da história recente, mais do que uma desconcertante autobiografia. Annie Ernaux constrói uma recordação de um “nós”, num relato sobre o que fica quando o tempo passa: “Tudo se apagará num segundo (,,,) Nem eu nem mim. A língua continuará a pôr o mundo em palavras. Nas conversas à volta de uma mesa em dia de festa seremos apenas um nome, cada vez mais sem rosto, até desaparecermos na multidão anónima de uma geração distante.”

 

“Annie Ernaux relata su vida imbricada en el agitado medio siglo de Francia” - espreite o artigo completo em WMagazín.


Os Anos, de Annie Ernaux, no blogletras

 

Livros da autora 

Os anos    Uma paixão simples    Écrire la vie

La place    Une femme    Se perdre 

Les armoires vides    L'occupation    Journal du dehors

  

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