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Um livro rebelde
3.outubro.2020

 

À espera no centeio

 

“SE ESTÃO MESMO INTERESSADOS NISTO, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido,  e toda essa treta  estilo David Copperfield, mas não estou para aí virado, para  dizer a verdade. Primeiro, porque é o tipo de coisa que me chateia, e segundo porque os meus pais eram capazes de ter dois ataques cada um se eu me pusesse a contar alguma coisa de mais pessoal acerca deles. São bastante suscetíveis com coisas do genéro, especialmente o meu pai. São simpáticos e tudo … não é isso… mas também são suscetíveis como o raio. E depois  não lhes vou contar  a merda da minha autobiografia toda nem nada que se pareça. Vou-lhes contar só aquela história de loucos  que me aconteceu o ano passado por volta do Natal antes de me ter  ido  completamente abaixo e de ter  vindo parar aqui para me pôr em forma. Aliás, também foi só o que contei a D.B. e ele é meu irmão e tudo. Ele está em Hollywood.“

 

 

 

“A voz do seu protagonista, o anti-herói Holden Caulfield, encontrou eco nos anseios e angústias das camadas mais jovens, tornando-o numa figura icónica do inconformismo. Da mesma forma, os temas da identidade, da sexualidade, da alienação, e do medo de existir, tratados numa linguagem desassombrada e profundamente original, fizeram de The Catcher in the Rye um símbolo da contracultura dos anos 50 e 60. Mas, passados sessenta anos sobre a sua primeira publicação, vendidos mais de 65 milhões de exemplares em quase todas as línguas, e instituído marco incontornável da literatura mundial, À Espera no Centeio mantém toda a atualidade e a frescura da rebelião.” [sinopse da editora Quetzal]

  

 

À Espera no Centeio (Quetzal, 2011)  foi editado em 1951 nos Estados Unidos. Inesperadamente tornou-se um sucesso e foi traduzido para quase todas as línguas.
Considerado, por muitos critícos literários, um dos 100 melhores romances do século XX. 

Em Portugal, as edições Livros do Brasil  publicaram esta obra de J.D. Salinger intitulada Agulha no Palheiro.

A obra mais conhecida de J.D. Salinger influenciou gerações de leitores.

 

 

 

“- Sabes o que gostava de ser? – disse eu. – Sabes o que gostava de ser? Quer dizer, se tivesse a merda de uma escolha?
- O que era? E para de dizer palavrões.
- Conheces aquela canção “Se alguém apanha alguém que atravessa o centeio”? O que eu gostava…
-É “Se alguém encontra alguém que atravessa o centeio!” – disse a miúda Phoebe. – É uma poesia. Do Robert Burns.
- Bem sei que é uma poesia de Robert Burns.
Mas ela tinha razão- É mesmo “Se alguém encontra alguém que atravessa o centeio! ”Mas naquele momento eu não sabia.
- Pensei que era “Se alguém apanha alguém” – disse eu.
Mas enfim, ponho-me a imaginar uma data de miúdos a brincar a um jogo qualquer num grande campo de centeio e tal. Milhares de miuditos, e ninguém por perto, ninguém crescido, quero eu dizer, a não ser eu. E eu fico ali na borda de um abismo lixado. E o que eu tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo… Quer dizer, se vão correr e não veem para onde vão eu tenho de saltar de um lado qualquer e de os apanhar. Era só isso que fazia o dia inteiro. Só estar ali à espera, a apanhar os miúdos no centeio e tal. Eu sei que é uma coisa maluca, mas é a única coisa que eu gostava de ser. Bem sei que é uma coisa maluca. “

 

The catcher in the rye

 

 The Catcher In the Rye – Holden Caulfield by Melissa Hatford

 

“Era uma miúda engraçada, a Jane. Não vou dizer que seja propriamente uma beleza. Mas deixava-me banzado. Era género multibocas. Quer dizer, quando falava e se entusiasmava com alguma coisa, era como se a boca dela se mexesse em cinquenta direções, lábios e tudo. Ficava banzado. E realmente nunca a fechava completamente, a boca. Tinha-a sempre um bocadinho aberta, especialmente quando se punha em posição no golfe, ou quando estava a ler algum livro. Estava sempre a ler, e lia livros muito bons. Lia uma data de poesia e tudo. Fora da minha família, foi ela a única pessoa a quem mostrei a luva de beisebol do Allie, com os poemas todos que tinha escritos e tudo.“

 

 

“Nunca contem nada a ninguém. Se contam, acabam por ter saudades de toda a gente” – é o final enigmático de À Espera no Centeio.

 

A revista Estante revela-nos 5 Curiosidade sobre J.D. Salinger. 

 

Leia o artigo  do jornal The Guardian sobre o 60.º aniversário da obra prima de J. D. Salinger - À Espera no Centeio.

 

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 Levantai alto o pau de fileira Franny e Zooey Nove histórias 


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