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29.agosto.2020

O nervo ótico

 

“Dois meses antes da minha viagem a São Francisco estava em casa e o telefone tocou durante o pequeno-almoço. Era muito cedo, as árvores tinham soltado a noite havia momentos e o toque sobressaltou-me como acontecia com os simulacros de incêndio no colégio. Quando atendi, um homem apresentou-se e disse-me que era pintor. A sua voz e o nome pareceram-me remotamente conhecidos. Tinha um apelido composto que não consegui perceber porque estava meio adormecida, mas soou como o sibilar de uma serpente. Disse-me que estava a preparar uma retrospetiva da sua obra e queria que eu lhe escrevesse um texto para o catálogo.“

 

Maria Gainza

 

María Gainza nasceu em Buenos Aires no ano de 1975. Colaborou, mais de dez anos, com a revista Artforum e o suplemento Radar do jornal diário Página 12. Foi correspondente do The New York Times e da ArtNews.
Orientou cursos para artistas e ateliers de crítica de arte, e foi co-editora da coleção Los Sentidos sobre pintura argentina. Em 2011 publicou Textos Elegidos, uma seleção de notas e ensaios sobre a arte do seu país. O Nervo Ótico é o seu primeiro livro de ficção.

 

O Nervo Ótico (D.Quixote, 2018) é uma visita a museus da Argentina e de tantas partes do mundo que nos dá a conhecer quadros de Cándido López, Hubert Robert, Gustave Courbet, Mark Rothko, El Greco, entre outros. Neste livro María Gainza oferece-nos “uma originalíssima combinação de memórias, ficção e livro de arte. Porque a vida é um museu”. A leitura desta obra permite-nos refletir sobre os medos, as fragilidades da vida, sempre num tom bem-humorado que testemunha a sua experiência estética perante certos quadros e certos artistas.

 

 

Artilharia do Paraguai, Cándido Lopez

Artilharia do Paraguai por Cándido Lopez (1840-1902), Argentina

 

“(…) os paraguaios esperam-nos com uma tricheira de dois mil metros feita de troncos com ramos como aguilhões de aço. O exército aliado avança, Cándido López corre sem olhar para trás, confia em que um manto invisível o protege, e corre com o coração na boca quando um estilhaço de granada lhe pulveriza a mão direita, a que leva o sabre erguido. Com a esquerda levanta então o sabre caído entre as ervas e segue em frente, perdendo litros de sangue; ao sentir tremor nos ossos e as náuseas que precedem o desmaio, deixa-se cair dentro de uma valeta.”


Pinturas de Cándido Lopez

 

The Portico of a Country Mansion

 The Portico of a Country Mansion

 

“Hubert Robert não inventou a estética do colapso mas elevou-se à glória. A poética da ruína era moda nos finais do século XVIII e o jovem Robert  conhecera-a por intermédio do seu mestre, René  Slodtz.Foi Slodtz quem o contagiou com o gosto pelas folies: o uso  de colunas, pagodes e obeliscos para a decoração de jardins. Não importavam a região nem o período histórico a que pertencessem, interessava apenas que fossem antigas, estivessem partidas e, sobretudo, que fossem falsas.”

 

Jesus no Horto das Oliveiras, El Greco

 Jesus no Horto das Oliveiras, El Greco

 

“(…) recordei que olharmos a pintura de El Greco é lutarmos connosco próprios. É o tipo de pintor que amamos desde adolescentes, quando a pintura ainda é uma coisa nova e a fuga da imaginação, um privilégio de novatos. Depois, quando os anos nos tornam mais informados e, portanto, cínicos, começam os confrontos. Incomoda-nos o seu dogma intransigente, mas também nos irrita a sua sensualidade. Ou custa-nos fazer encaixar as duas coisas numa mesma imagem porque nos ensinaram que são elementos que não andam juntos: a carne e o espírito.”

 

  

 

 Os quadros do livro O Nervo Ótico

 

O Nervo Ótico, de María Gainza, fala-nos de uma vida em pinturas. Leia o artigo no Jornal Público

 

 

 

Museu das Belas Artes - Buenos Aires, Argentina

 

Maria Gainza. Uma flecha entre géneros. Jornal Sol, artigo de Diogo Vaz Pinto

 

 Livros que habitam O Nervo Ótico

 Cinco semanas em balão     A Divina Comédia     As mil e uma noites 

 Nove histórias     A laranja mecânica     O leopardo 


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