Um autor por mês
Um autor por mês
Pedro Tamen.

  

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in Tábua das Matérias



 Pedro Tamen


“Poeta português, Pedro Mário Alles Tamen (1 de dezembro de 1934 - 29 de julho de 2021) nasceu em Lisboa.
Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi diretor de uma editora (Editora Moraes) e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, e co-dirigiu as revistas Anteu e Flama.
Lecionou no ensino secundário, fez crítica literária no semanário Expresso e foi ainda presidente do PEN Clube Português, entre 1987 e 1990. 

Traduziu Imitação de Cristo, dos Fioretti de S. Francisco, Cantos de Maldoror, de Breton, e ainda outras obras de autores como Sartre, Foucault, Camilo José Cela, Georges Bataille, Georges Pérec, Flaubert e Gabriel García Márquez. Em 1990 obteve o Grande Prémio da Tradução. 

Depois de uma crise religiosa, converteu-se ao catolicismo em 1953, não deixando as obras de estreia, em 1956 e 1958, de refletir uma busca da transcendência, traduzida numa escrita poética fundada na rutura com a causalidade e com a referência, encontrando no esplendor da própria linguagem o efeito lustral da palavra. Para António Ramos Rosa, "a poesia de Pedro Tamen é um incessante exercício de liberdade que corre o risco de se perder na insignificação total e, por outro lado, uma busca permanente de uma frescura inicial (que é a frescura da dimensão do instante recuperado na sua transparência); e, além disso, não obstante a opacidade negativa de muitos dos seus poemas, é também a reinvenção que, no próprio obscurecimento do sentido, instaura uma possibilidade aleatória, que é já uma esperança e uma vitória sobre o drama existencial" (ROSA, António Ramos - Incisões Oblíquas, p. 91). 

A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. Do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa). Em 2006 a Oceanos publicou o seu livro de poesia Analogia e Dedos. A poesia de Pedro Tamen mereceu já as seguintes distinções: Prémio D. Dinis (1981), Prémio da Crítica (1991), Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), Prémio Nicola (1997), Prémio da Imprensa e prémio PEN Clube (2000).“

in Quetzal

 

E ainda: Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa (2000), Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia (2001), Prémio de Poesia Luís Miguel Nava (2006), Prémio Inês de Castro (2007), Grande Prémio de Poesia Associação Portuguesa de Escritores/CTT (2010) e Prémio Literário Casino da Póvoa (2011).

Pedro Tamen recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a 9 de junho de 1993.

 

Momentos com Pedro Tamen documentário biográfico produzido em março de 1994 

 

Nascido em 1934, Pedro Tamen é um dos poetas mais reconhecidos na sua geração na sua geração, mas também um excelente tradutor.

A jornalista Ana Sousa Dias, no programa Por Outro Lado entrevista Pedro Tamen. Excelente conversa para conhecer melhor o poeta e tradutor. 

 

Entrevista a Pedro Tamen

 

Nesta entrevista Pedro Tamen confessa a Ana Sousa Dias que “a tradução literária era um vício, adquirido muito cedo, e que no caso da obra de Proust atingiu um grau de "possessão", de uma obra que é "um dos grandes livros que a Humanidade produziu até agora". 

 

 Em busca do tempo perdido

 

Além de Proust, Pedro Tamen traduziu obras de Flaubert, Camilo Jose Cela, Georges Pérec, Jean Paul Sartre, Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa e Michel Foucault.

 

O tradutor seduzido é um artigo de Rui Lagartinho sobre a arte de tradução do Pedro Tamen.

 

O Centro Nacional de Cultura e o Escritas.org disponibilizam mais detalhes sobre a biografia e bibliografia de Pedro Tamen.

 

 

O tempo e o modo 

 

 

Pedro Tamen, juntamente com António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Nuno de Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira, fundaram a revista O Tempo e o Modo, em janeiro de 1963.

Os fundadores fizeram parte de uma geração de inconformados provenientes de diversos movimentos católicos como o jornal Encontro e da Juventude Universitária Católica.

Em 2018 é lançado o sítio O Tempo e o Modo, descubra-o.

 

Revista Anteu

Pedro Tamen co-dirigiu as revistas Anteu – cadernos de cultura – e da Flama.

 

 

Retábulo das Matérias

 

«Como editor, como poeta, como escritor, como intelectual ativo, Pedro Tamen é uma personalidade das mais marcantes do nosso tempo», escreveu Guilherme de Oliveira Martins, a propósito de Retábulo das Matérias (1956-2013) — uma recolha da obra poética de Tamen, que reflete mais de 5 décadas da sua produção lírica, publicada em junho deste ano [2018] pela Imprensa Nacional.»

in Impressa Nacional

 

Tua palavra é longe
como de longe vejo
a luz solar que esconde
as ramas do desejo.
Mais de mim que de ti
minha palavra é longe:
roço o bronze daqui
e é mais além que tange.
Serás tão perto dela
qual eu da luz, a tua?
Termos a mesma pele
dá-nos calor da lua
que é calor de relento
entre o dia e o dia,
sabor de brando invento,
amor-telegrafia.

in Retábulo das Matérias

 

Retábulo das Matérias

 Retábulo das Matérias é um livro recomendado pelo PNL2027.

 

 

Só dos mortos devemos ter ciúmes; acordar
de entre as pedras doentes dolorosos
que da beira das arribas nos atirem ao porto
onde enfim se encontre a nossa angústia.
Só eles lutam palmo a palmo pelo espaço
em que já vertical erguemos nosso braço
em busca de que sumo ou de que céu. E que só eles
nos retiram da cama de que por nós foi feita
a escolha: a macieza intensa que julgámos
eterna, que nos parecia tão cordatamente
entregue à nossa própria suma sumaúma.
Só os mortos, horror, inda que vivos, vivem
paredes meias com os nossos dedos, logo afastam
os momentos ferozes que tocássemos, e as nuvens
por sobre o mar dos olhos: é bem feito,
dizem os meninos. Pois que dos vivos vivos
a vida nos desvia e nisso nos conduz, assaz
encaminhados pelo que vamos querendo.
Só os mortos nos mordem, nos apontam
a dedo frio e tenso, entorpecem desejos
e, pois pior, só eles nos expulsam
do vero som dos sinos numa entrega
às palavras baldadas do comércio.
A luta clara que sonhada fosse
pela mão dada e limpa que nos dessem
tropeça, polvo, com misérias nossas
e enterra-se na pérfida, agoniada leira
onde dominam eles nossas bocas e o sangue
que nelas perpassasse. Só os mortos,
invisíveis, letais, pesados entes,
nos disputam a vida, e só por fim nos matam.

in Retábulo das Matérias

 

 

Troco-me Por Ti | Poema de Pedro Tamen com narração de Mundo Dos Poemas

 

 

Em 1993 é publicado o livro Caracóis com ilustrações de Júlio Pomar.

O caracol

 

 O caracol

 

Carlos Vaz Marques entrevista Pedro Tamen, em 2011, para a Revista Ler

Pedro Tamen
Formado em Direito e Solidão

 

Revista LER 

 

“(…)

Os anos em que não publicou poesia, até voltar com O Livro do Sapateiro, foram anos de desânimo?

Esses foram. De desânimo, mesmo. Nada me ocorria que pudesse escrever e que não fosse a consciência da inevitabilidade da morte próxima, do significado dela.  Há um poema meu que me diz muito, com uma espécie de refrão um pouco gozão: “Não tarde e quino, não tarda e quino” O que levou o Fernando Pinto do Amaral a dizer que o verbo «quinar» tinha entrado na poesia portuguesa. A questão agora não se põe da mesma maneira. pensar na morte é natural quando se tem 76 anos mas já não penso nela normalmente com os mesmos olhos negros com que a olhava antes.

(…)

Nos períodos de secura poética em que aquilo que lhe ocorre é normalmente rejeitado por si, o que é que teme mais:  cair na banalidade ou repetir-se?

É a banalidade, realmente. Acontece-me muitas vezes . mesmo agora que estou a escrever com regularidade intensidade – começar a ficar um pouco ansioso se passam duas ou três semanas em que não escrevo nada: será que acabou? Depois tenho a tentação de forçar a pena mas aí entra o medo da banalidade.

(…)

Ainda lhe chamam «poeta barroco»?

Ultimamente já não. Mas houve um tempo em que era o mote. Foi uma coisa que o João Gaspar Simões lançou e que ficou.  Até os que eram verdadeiramente poetas barrocos ou admiradores estavam muito contentes e consideravam que isso era um belo elogio que me faziam.

Essa classificação teria a ver com a sua sintaxe, que nunca foi propriamente ortodoxa?

Sim, claro. por isso e também por uma tendência que sempre tive de, às apalpadelas, às escuras, ir por aproximações sucessivas à procura da definição do assunto. Que permanece radicalmente indefinido, já se sabe.

(…)

O que me está a dizer é que foi um homem bem-comportado?

Exactamente. Um homem bem-comportado. Jeune garçon bien rangé. A poesia é o meu território de liberdade. Disso não tenho dúvidas. Eu tenho um poema, que está nos esparsos, sobre a minha agenda, que começa: «Agenda meu desforço / subtil celeridade com que esqueço» e em que confesso isto: «Agenda que me vestes / gravatas e coletes» - ainda era no tempo em que se usava colete. Ao menos agora nunca mais pus gravata. Há 10 anos que não ponho uma gravata. A agenda funcionava como uma espécie de carapaça que me resguardava na minha intimidade, inclusive na poesia que ia escrevendo e contribuía para que as pessoas dissessem: Este tipo afinal é poeta, mas não parece poeta, é um tipo normal.»

Parte-se portanto do princípio de que os poetas não são tipos normais.

Exactamente.

E não são?

Os poetas, no seu reduto próprio de poetas, não são tipos normais. Em princípio, o poeta é aquele que vê um bocadinho mais do que os outros. Ou que pelo menos é capaz de exprimir coisas que vê e que os outros, mesmo quando vêem, não são capazes de formular. Estou a falar tanto das portas como dos artistas em geral: músicos, pintores, etc. A poesia é, para mim, um permanente arranhar o mundo, com unhas na cal, para tentar encontrar coisas que se pressentem por detrás do banco uniforme do mundo e da vida.

(…)”

in Revista Ler, n.º 99.

 

 

Patrícia Reis lê Pedro Tamen

 

 

 

 Colóquio Letras

Pedro Tamen colaborou em vários números da revista Colóquio Letras, leia-os aqui.

 

 

 

De viva-voz - Pedro Tamen. Poetas, atores e outros convidados dizem poesia sua e de outros.

Centro Cultural de Belém | Março de 2009

 

Vou a Praga à boleia, meu amor - Oiça este poema na voz de André Pinto, da Antena 2.

 

Pedro Tamen 

 

Morreu Pedro Tamen: um “poeta com uma voz única” e um “tradutor de mão cheia” divulga o jornal Expresso.

 

"Deixou uma marca." Pedro Mexia reage à morte de Pedro Tamen.

 

As palavras de Guilherme d’Oliveira Martins sobre Pedro Tamen.

 

 

Outros livros do autor

 

 Rua de Nenhures     O livro do sapateiro     Um teatro às escuras 

 Analogia e dedos     Escrita redita     Horácio e coriáceo 

 Escrito de memória     Tábua das matérias     Princípio de sol 

 

Veja também:

"Um Autor por Mês"

"Um Livro por Semana"                                       

ENTRELER
Revista digital, anual, livre e gratuita, sobre leitura, escrita e literacias.