Um autor por mês
Um autor por mês
Maria Judite Carvalho

 

Cheguei aqui sempre em Setembro
Trazendo o medo
como bagagem
As mãos vazias
Os olhos vagos
Falsos tesouros
Nula viagem.

Armários fundos
Onde guardei
Todo o vazio circular
Do tempo
De mim não sei
Observei
Cheguei aqui sempre em Setembro


 Isabel Fraga, in Água Silêncio Sede

 

 

Em 2021, comemora-se o centenário do nascimento de Maria Judite Carvalho. O PNL2027 associa-se a estas comemorações, divulgando a sua obra, estudos e livros sobre a autora, assim como outros eventos. 

Maria Judite de Carvalho (1921-1998) escritora portuguesa, unanimemente considerada uma das vozes femininas mais importantes da literatura nacional do século XX.

 

Maria Judite Carvalho


Maria Judite de Carvalho nasceu em Lisboa. Estudou no Colégio Feminino Francês e no Liceu Maria Amália; depois disso, estudou Filologia Germânica, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Trabalhou como jornalista na revista Eva, onde começou a publicar como contista e como cronista («Crónicas de Paris»). Mais tarde, foi redatora no Diário de Lisboa e colaborou, como cronista, no semanário O Jornal.

Reconhecida como uma das vozes mais significativas da renovação que a narrativa portuguesa conheceu, na sequência do neorrealismo, Maria Judite de Carvalho é dotada de um extraordinário talento de contista, associado à singular representação do mundo que, sobretudo nos seus contos, se dá a conhecer; na sua ficção configura-se, com precisão e com equilíbrio no tratamento das categorias da narrativa, um pequeno universo que, cabendo todo nas apertadas fronteiras de breves relatos, é capaz de transcender essas fronteiras, prolongando-se para além delas: em Maria Judite de Carvalho revela-se “uma intensidade que escolhe manifestar-se por assim dizer ‘em tom menor’” (Buescu, 2001: 293). No mundo dos seus contos, das suas novelas e dos seus romances, como no das suas admiráveis crónicas, perpassam pequenas ambições e grandes frustrações, solidões e desencantos calados, tudo projetado num cenário que, sendo marcadamente feminino, é atravessado por um calor humano inesquecível (cf. Buescu, 1998).

Títulos significativos de uma produção sempre conduzida de forma discreta: Tanta Gente, Mariana (1959), As Palavras Poupadas (1961), Paisagem sem Barcos (1964), Os Armários Vazios (1966), Flores ao Telefone (1968), Os Idólatras (1969), Tempo de Mercês (1973) e ainda Além do Quadro (1983), Seta Despedida (1995) e Este Tempo (1991; crónicas, livro distinguido com o Prémio da Crónica da Associação Portuguesa de Escritores).

in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

  

Poderá conhecer mais sobre a vida e obra de Maria Judite Carvalho no portal da DGLAB.


Prémios literários:

Prémio Camilo Castelo Branco (1961)
Prémio da Crónica da Associação Portuguesa de Escritores (1991)
Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1995)
Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1995)
Prémio Pen Club (1995), Prémio Revista Máxima (1995)
Prémio Vergílio Ferreira (1998)
Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco (1995)

 

                   

   Maria Judite Carvalho                          Maria Judite Carvalho

 

O Plano Nacional de Leitura 2027 convidou Sofia Fraga a escrever umas palavras sobre a sua avó, Maria Judite Carvalho.

Sofia partilhou, connosco e com os leitores, um texto emotivo intitulado Ouvir os mortos.


No início dos anos 90, e por grande insistência da minha mãe, comprou-se lá para casa uma máquina de filmar. Havia que registar os momentos mais importantes da nossa infância, os aniversários, as festas escolares, as pequenas e grandes conquistas, os encontros de amigos, enfim, trivialidades para quem tenha nascido no século xxi, um luxo para as gerações anteriores. A máquina era um verdadeiro colosso e obrigava a toda uma logística que o meu pai de bom grado reclamava para si. E, fôssemos nós para onde fôssemos, lá ia a máquina atrás.

Aqui há uns anos, num ímpeto saudosista de rever essas filmagens, decidimos passar os velhos VHS a DVD e, como prenda para toda a família, nesse Dia de Natal revisitámos a nossa infância – no meu caso e da minha irmã – e relembrou-se outra vida, no caso dos meus pais. Os mortos também compareceram, e o silêncio abateu-se sobre todos no momento em que a avó Zita apareceu. Na verdade, foi apenas um relance, um vislumbre fugaz a fugir do ecrã. Não gostava de câmaras, e são poucas, aliás, as fotografias que temos em família. Mas a voz dela ainda se arrasta na fita durante alguns segundos, o tempo de dizer que não quer ser filmada, que não gosta, que não insistam. Ouvir os mortos. Eu tinha dezasseis anos quando a avó Zita partiu e, até àquela tarde de Natal, já perto dos meus trinta anos, nunca mais a ouvira. Há uma força na voz que a imagem não guarda, uma modulação que confere movimento, cor e cheiro às memórias. E, embora longe do ecrã, ela estava ali por inteiro, a blusa de seda em tons violeta que sempre usava, a saia a cobrir o joelho, os lábios cheios delineados a lápis, o perfume a lavanda, a pele macia e até a corcunda que lhe pesava os dias. Acho que todos chorámos.

Ainda nessa tarde longínqua da década de 90, e goradas as intenções de a filmar, a minha mãe decidiu-se por uma «entrevista» às netas. Queria saber aquilo de que mais gostávamos na casa dos avós. De pé, não muito direita embora estrategicamente posicionada de frente para a câmara, atiro, como se me tivessem acabado de fazer a pergunta mais tonta: «Dos avós!» Sim, mas e os quadros, e os livros?, ainda se ouve. «Não, aquilo de que mais gosto nesta casa é mesmo os avós.» Senti orgulho na Sofia dos meus onze anos e revi-me naquele metro e meio de gente.

Ela era Zita para os amigos, Zinha para o marido e para a filha, é a Maria Judite de Carvalho para todos os leitores que a perpetuam, avó Zita para mim. “

Sofia Fraga, setembro de 2021



RTP Ensina - Clique para ver

Leitora atenta da sua obra, Paula Mourão diz-nos que os textos da autora de “Seta Despedida” representam a consciência em movimento saiba porque no documentário disponível na RTPEnsina.



Maria Judite Carvalho


 

Mulheres.
Mulheres oprimidas.
Angústia feminina.
Velhos.
Velhos desprezados pela sociedade.
Solidão.
Isolamento.
Frustração.
Intimidade.
Vida.

São alguns dos temas que encontramos na obra de Maria Judite Carvalho.


As Obras Completas de Maria Judite Carvalho, editado pela Minotauro, no ano de 2018, estão organizadas em seis volumes:


Obras completas - Volume 1

A capa deste volume 1 é a reprodução de um quadro da autoria de Maria Judite de Carvalho. O quadro retrata a sua filha, Maria Isabel Tavares Rodrigues Alves Fraga.

 

Tanta Gente, Mariana foi uma espécie de bomba, sem excessos verbais, que caiu sobre o marasmo da sociedade portuguesa do final dos anos cinquenta, com uma ironia dolorosa, por vezes ácida, denunciando as frustrações e contidas mágoas da mulher portuguesa entregue aos caprichos masculinos e aos «brandos costumes» da hipócrita moral salazarista.

Mariana, sem lágrimas, mas fazendo chorar alguns leitores, eu entre eles, é o paradigma do sofrimento e do início de uma revolta surda, que antecipa as palavras, já bem explícitas, das escritoras feministas que vão depois aparecer: Natália Nunes e sobretudo Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.

Tanta Gente, Mariana, obra literária magnífica, no seu abafado desencanto, na dignidade do seu comportamento. Mariana é o paradigma da solidão da mulher, de uma solidão que é denúncia, de uma fuga ao turbilhão das vozes que a magoam e que o título da obra tão bem expressa: «Tanta Gente, Mariana».

O que esta obra inovadora inicial codifica em dor quase suave vai definir-se melhor no livro seguinte: As Palavras Poupadas.“

Urbano Tavares Rodrigues


Obras completas - Volume 2

“A voz é suave, o rosto de uma serenidade adquirida, uma afabilidade de seu natural, os gestos mansos. Nada, nesta mulher de vulgar aparência, é contrito, repeso. Distancia-se (sempre se distanciou) dos rataplãs da publicidade; não vai a sessões de autógrafos, não cultiva as encenações de actor em que muitos autores (e alguns bons autores) travestiram. recusa a vida parda, a existência polvilhada de futilidades. Porém, alimenta uma vida interior riquíssima: a noção de pudor, o sentimento do escrúpulo. (…) De que fala, sobre que escreve Maria Judite Carvalho? Penso que de e sobre os cativos resignados, os heroísmos complacentes, as solidões povoadas, os desamores; de todas as pequenas comédias que nos solicitam desde a infância. (…) A linguagem é, como se sabe, uma outra realidade, ou um outro (pessoal) processamento de realidades. A grandeza da Maria Judite de Carvalho consiste em conferir aos seus belíssimos textos o conhecimento do espelho poliédrico. Melhorar-nos como criaturas humanas, desenvolver e acrescentar ao que sabemos um pouco (ou muito) mais daquilo que sabemos. Porque nós, todos nós, sabemos muito menos daquilo que existe para saber. Melhor: o que não sabemos é infinitamente superior ao que sabemos. Porquê, então, este quase desconhecimento da obra de Maria Judite? Apressadamente há quem tenha a leviandade de comentar: a culpa é dela, que se não promove, que não promove os seus livros. Um escritor é escrever. Promover é tarefa de outras instâncias. A relação de Maria Judite em aparecer em público para justificar, explicar ou simplesmente falar dos seus livros é resultado desse seu escrúpulo e desse pudor com os quais se escora e com os quais se defende. Um escritor não tem cara. A cara de um escritor é a que está contida nos seus livros: sua única intervenção possível. Ainda há dias, conversando com Paula Morão, lhe manifestava a minha indignação perplexa pela forma como Maria Judite era uma escritora secreta, quase só para um público reduzido de iniciados. Paula Morão, veemente, disse-me que, nas suas aulas, Maria Judite Carvalho era lida, comentada, amada. Penso, realmente, que uma nova camada de leitores, os novos portugueses, vão finalmente encontrar-se com uma importante autora; reencontrar-se com admiráveis textos onde a alquimia da palavra reside numa poética visão transgressora da realidade, numa transfiguração emocionante e emocionada do real quotidiano; uma comunicação referencial irrefutável que abdica de todo o ritual para se assumir à escala de uma sociedade. A nossa. Porque Maria Judite escreve português, de problemas portugueses, de gente portuguesa. (…)”

Batista-Bastos «Toda a eternidade», in Ler-Livros & Leitores, 1989, nº5, inverno, pp.29-31

 

Obras completas - Volume 3

“Que admirável temperatura emocional a destes contos que são dos melhores, senão os melhores, que Maria Judite de Carvalho alguma vez escreveu. Lendo-os, penetrando-os linha a linha, a suave melancolia que se desprende deles afirma-se no final com a força terrível de uma solidão sem alardes. Sim, solidão. «Armários vazios» em cada corpo que se julga partilhado. O tesouro da verdade timidamente guardado nas existências mais apagadas… É tudo isto e muito mais que ressalta desta coletânea que abre com a admirável peça Flores ao Telefone.“

José Cardoso Pires, Diário de Lisboa, 30 de janeiro de 1969

  

 

Obras completas - Volume 4 

 O quarto volume reúne dois livros de crónicas – A Janela Fingida e O Homem no Arame – e uma coletânea de contos – Além do Quadro.

 

 

Obras completas - Volume 5

O quinto volume reúne um livro de crónicas - Este Tempo– uma coletânea de contos – Seta Despedida -, um livro de poesia – A Flor que Havia na água Parada - e uma peça de teatro – Havemos de Rir!

 

 

Obras completas - Volume 6

“As crónicas publicadas nos jornais da cidade de Lisboa são textos que silenciosamente corrompem estereótipos quase imperceptíveis da nossa pequena sociedade. Mas como evidenciar a importância dos «Diários de uma dona de casa» assinados por Emília Bravo? E quem se lembra daquela voz que testemunhou os hábitos e os costumes femininos (1971-1974), no suplemento «Mulher» do Diário de Lisboa?

Esta antologia surgiu com a intenção de realçar mais uma vertente cultivada pela cronista e que permaneceu esquecida (ou desconhecida) do grande público. Emília Bravo envolve-nos numa conversa e mostra-nos, de uma forma contundente, o quotidiano das mulheres portuguesas: das donas de casa, das empregadas de escritório e das mulheres que ficaram irremediavelmente solteiras. São ecos do passado, mas que, ainda hoje, surpreendem e fazem pensar nos pequenos nadas da nossa vida diária. Por isso, convidamos o leitor a ler o livro e a estar atento, bem atento, à voz acutilante e perturbadora de Emília Bravo. “

Ruth Navas (organização), in Bertrand Livreiros

 

 

Mariana Oliveira conversa com Isabel Lucas sobre os livros de Maria Judite Carvalho. Ouça o Podcast.

 

 

TSF

 Ouça o podcast Outros Sinais, de Fernando Alves sobre a mais recente redescoberta do espólio de Maria Judite Carvalho.

 

 

Felizmente as árvores são grandes

Felizmente as árvores são grandes (Minotauro, 2021)

Texto de Maria Judite Carvalho, ilustrações de Cátia Vidinhas


 

“Enquanto estudava o espólio da minha avó, Maria Judite Carvalho, encontrei um caderno Castelo, onde ela escrevera uma série de poemas, muitos dos quais podes encontrar agora aqui. Junto de alguns, colado no canto inferior da página, encontrava-se um pequeno recorte de um jornal que hoje não existe, o Diário de Lisboa. A minha avó indicava.me, dessa maneira, que publicara aquele texto sob o pseudónimo de Emília Bravo. (…)

No momento em que publicamos este livro, faz quase cem anos que a minha avó nasceu. cem anos são um século. Que melhor maneira haverá de celebrar esse nascimento do eu publicando estas palavras que ela escreveu para crianças, que ela escreveu mesmo para ti, que hoje as lês? “

Inês Fraga in prefácio Felizmente as árvores são grandes (Minotauro, 2021)

 

 

Leitura de Inês Fraga - O Astronauta, de Maria Judite de Carvalho.



Poema - Fim de férias

 

 

 

Leitura de Sofia Fraga – A menina tonta, de Maria Judite de Carvalho.

 

 

Poema- Os óculos

 

 

 

Água Silêncio Sede

Água Silêncio Sede - Homenagem Poética a Maria Judite de Carvalho no centenário do seu nascimento, edições Poética, 2021.

 

Água Silêncio Sede é uma homenagem poética a Maria Judite De Carvalho no centenário do seu nascimento.  Seleção e organização por Lilia Campos e Carlos Campos.

A antologia poética reúne 123 poetas revisita a “paisagem temática” da escritora, segundo São Gonçalves, falamos sobretudo de “solidão, a tristeza, o desamparo, o exílio interior. Casos humanos de solidão, desajustamentos da condição feminina num quadro social e político. Num quotidiano sujeito a rotinas, desencantos, amarguras, a silêncios desmesurados, tristezas indizíveis. “ 

 

 

Espelho

Às vezes perguntava a si própria o porquê do
seu corpo, da sua casa, do seu modo de ser, o porquê
de estar neste mundo à espera de coisa nenhuma.

 

“Continuar à espera
sem como nem porquê que nos dissesse
o propósito disto   de aqui estarmos
aparecidos no mundo
à espera de ninguém  coisa nenhuma
nada Ficar assim
a assistir ao espectáculo
a ver como se vive como vivem
os outros Ver os outros
as outras
vê-las ao espelho
e ser agora apenas isso   espelho
ou talvez já nem isso    vidro fosco
vidro lento   parado   mar   profundo
onde a luz se reflecte e ao mesmo tempo
muda“

Fernando Pinto do Amaral in Água Silêncio Sede


Palavras, Tempo, Paisagem

Maria Judite de Carvalho - Palavras, Tempo, Paisagem
de Paula Morão e Cristina Almeida Ribeiro

 

“(…) Neste volume encontramos contributos doravante indispensáveis para ler não só a obra de Maria Judite de Carvalho, mas para considerar por exemplo as relações dela com outros autores e com outras artes (a pintura, o cinema), com a problemática e os limites dos géneros na contemporaneidade, com os limites da literatura de autoria feminina, com a questionação ontológica do tempo e a representação do real.”

in Wook


Além do Quadro. Colóquio comemorativo do centenário do nascimento de Maria Judite de Carvalho (1921-1998) decorreu no passado dia 21 de setembro, com a participação da Prof.ª Rute Navas   que partilhou a pesquisa e estudos sobre «A Janela Fingida, de Maria Judite de Carvalho: um Projecto de Leitura desafiante» e a Inês Fraga que partilha o livro de poesia para crianças de Maria Judite Carvalho «“Felizmente as árvores são verdes”: um cruzamento de vozes entre folhas dispersas».

 

Cartaz

ENTRELER
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