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Um autor por mês
Um autor por mês
Vergílio Ferreira

   

Vergílio Ferreira 

Vergílio Ferreira nasceu em Melo, uma pequena aldeia do concelho de Gouveia, no dia 28 de janeiro de 1916.
Frequentou o Seminário do Fundão, que retratou no romance Manhã Submersa, e que Lauro António adaptou para o cinema, convencendo Vergílio Ferreira a participar no filme, no papel de Reitor do Seminário; e a Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Filologia Clássica, e fazendo o estágio para professor no Liceu D. João III, atual Escola Secundária José Falcão.

Passou por Bragança, Évora e Faro, até ao Liceu Camões, em Lisboa, onde coincidiu com o aluno António Lobo Antunes que o descreve numa crónica (Retrato do Artista Quando Jovem) como “um professor de ruga atormentada na testa como se os rins da alma lhe doessem que atravessava o pátio do recreio torcido por incómodos metafísicos. Um colega mais instruído revelou-me que o professor se chamava Vergílio Ferreira e publicava livros”.

As cidades de Évora e Coimbra fazem parte do imaginário literário de Vergílio Ferreira, mas também a Serra da Estrela e a sua aldeia de Melo, que servem de cenário a densos e profundos textos do autor.

 

 

Vergílio Ferreira

 

Conheça melhor o escritor Vergílio Ferreira no sítio dedicado ao autor.

 

Os Prémios atribuídos a Vergílio Ferreira

1960 | Com Aparição recebe o Prémio «Camilo Castelo Branco» da Sociedade Portuguesa de Autores.

1965 | Com Alegria Breve recebe o Prémio da Casa da Imprensa.

1981 Recebe o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus.

1983 | Com Para Sempre recebe o Prémio PEN Clube, Associação Internacional de Críticos Literários e Município de Lisboa.

1985 | Recebe o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários pelo conjunto da sua obra.

1988 |Com Até ao Fim recebe o Grande Prémio de Romance e Novela da APE.

1990 | Com Manhã Submersa recebe o Prémio Femina (França).

1991 | Recebe o Prémio Europália pelo conjunto da sua obra.

1992 | Recebe o Prémio Camões.

1994 | Com Na tua Face recebe o Grande Prémio de Romance e Novela da APE

 

 Vergílio Ferreira

 

No mês em que se comemora a língua portuguesa recordamos o discurso de Vergílio Ferreira, na cerimónia em que lhe foi atribuído o prémio Europália (Bruxelas), em 1991. Um discurso manifestamente de afirmação da língua portuguesa como reflexo da cultura de um povo cuja identidade é indissociável do mar. Destaca-se daí uma frase lapidar – «Da minha língua vê-se o mar»

Recordemos um excerto do discurso:

 “(…) com a língua portuguesa realizámos oito séculos de uma bela literatura, deixando nela a memória do que foi fundamental para a modernidade europeia. O orgulho não é um exclusivo dos grandes países porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. A alma do meu país teve o tamanho do mundo (…). Uma língua é o lugar donde se vê o mundo, e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá a floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação. Assim o apelo que vinha dele, foi o apelo que ia de nós…”


in Observatório da Língua Portuguesa

 

 

 

 

Vergílio Ferreira é autor de uma obra ficcional mais importantes e singulares do século XX português, mas também notável ensaísta e diarista.

 

“Todos os romances de Vergílio Ferreira, mesmo os primeiros, estão cheios do que se pode chamar obsessão metafísica ou pathos metafísico, expresso na predileção pelos que tradicionalmente pertencem à esfera da filosofia, temas da angústia, da morte, do tempo, de Deus, do sentido da arte ou da história.”

Eduardo Lourenço

 

 

 

Manhã Submersa

Livro recomendado pelo PNL.

“O despertar para a vida de uma criança, entre a austeridade da casa senhorial de D. Estefânia, a sensualidade da sua aldeia natal e o silêncio das paredes do seminário. Um jovem seminarista de 12 anos, é obrigado a ir para o seminário. E a história desenrola-se em torno das vivência e sentimentos que o jovem seminarista vai experimentando. Num ambiente negro, triste, ríspido e severo do seminário, o jovem descobre-se e descobre o mundo que o rodeia: a repressão na educação, a pobreza da sua terra, as desigualdades sociais, o desejo do seu corpo, a camaradagem, a amizade, o amor.”

Sinopse in Wook

 

«E tomei uma bomba, e cheguei fogo ao rastilho, e esperei. A chama fervia pelo rastilho dentro, aproximava-se vertiginosamente da bolsa de pólvora. Uma placa de aço incandescente colava-se-me, por dentro, ao osso da fronte, queimava-me os olhos uma ácida lucidez. Eu estava sozinho, diante de mim e do mundo, perdido no súbito silêncio em redor. Mas no instante-limite da explosão, no ápice infinito em que tudo iria acontecer, um impulso absurdo, vindo não sei de que raízes, fez-me arremessar a bomba. Ou talvez que não houvesse impulso algum e tudo seja apenas, ainda agora, uma incrível fímbria de receio de que não cumprisse o meu propósito até ao fim.»

 

O romance Manhã Submersa foi adaptado ao cinema e inspirou uma minissérie que foi transmitida na RTP, onde o próprio Vergílio Ferreira desempenha um papel.

 

Manhã Submersa (1978)

 

 Cartaz de Manhã Submersa

 

 

 

Vergílio Ferreira

 

 Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira, é a vivência de adolescer em clausura – leia o artigo completo em Comunidade Cultura e Arte.

              

                          

Aparição

Livro recomendado pelo PNL.

Alberto Soares, a personagem central, rememora o ano em que deu aulas em Évora. E as pessoas que conheceu e que, de alguma maneira, contribuíram para a consolidação das suas teorias sobre a existência: Sofia, como quem manteve uma relação erótica tumultuosa, e as suas irmãs, Ana e Cristina. Carolino que, por ciúmes, tenta matar Alberto, mas acaba matando Sofia. Cristina, a irmã-criança de Sofia, também morre.

In Bertrand 

 

 

 

 

 

 

O romance homónimo de Vergílio Ferreira – Aparição –   foi adaptado ao cinema, a longa-metragem portuguesa realizada por Fernando Vendrell.

 

 "Aparição", de Vergílio Ferreira - Ensina RTP

 

  

 

Para sempre

”Em Para Sempre, «no final de uma vida, entrando no seu epílogo, um homem já sem destino para cumprir medita sobre o seu passado e o seu futuro, no regresso a uma casa vazia onde passou parte da sua infância, povoada de fantasmas que evocam os momentos-chave da sua existência. Recheado de flashbacks para o passado e para o futuro (!), a antevisão, real e com todos os detalhes, da degradação da sua velhice e do seu funeral urge em Paulo a derradeira tentativa de procura da explicação de um sentido para a vida».

Contracapa do livro Para Sempre

 

  

«Contínua e cada vez mais solitária viagem em volta do único ponto do seu universo: o da sua infância como monólogo inacabado e inacabável em torno do milagre ardente e pavoroso da sua própria aparição no meio do mundo - montanha, estrelas, água, vento que é uma resposta antes de ser desesperada e inútil interrogação.» - afirmou Eduardo Lourenço a propósito do livro Para Sempre.

 

Ouça uns excertos do livro:

  

Vergílio Ferreira - 'Para Sempre' (excertos)

    

Vergílio Ferreira escrevia para pensar a condição humana e para desvendar o mistério da vida, tal como se poderá constatar no documentário da RTP Ensina.

 

A procura do sentido da vida

 

 

 

Pensar

“Ler para quê? Leio pouco. Livros que me distraiam? Estou bastante distraído comigo próprio. Nem bem mesmo os livros que me acrescentem o saber, mas os que me acrescentem a mim. Nós somos imensos mas atrofiados. Importam-me assim os livros que desenvolvem o que sou. Quantas coisas ignoramos que somos, apenas porque o embrião disso se nos não desenvolveu até ser vísivel. Um livro que me acrescente, não que se me acrescente. O que acumulei é muito. O que fui é muito pouco. “

 (…)

 “Um livro de Kafka  poderá ler-se um sáo vez, mas tem de pensar-se muitas vezes. Um livro de Flaubert ou Eça poderá ler-se muitas vezes, mas pensar-se uma só. Pergunta-se: se depois de os leres a ambos tivesses de ficar só com um, qual deles guardarias na biblioteca?”

(…)

“Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime , do que é dificil e excessibo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu escrevo. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. (…)“

 

 

Imagem de Pensar

 

“(…) Pensar pode ser considerado – e parece que foi assim que alguma crítica o leu e recebeu – como uma espécie de ‘quinta-essência’, no sentido químico a alquímico do termo, da visão da vida de um autor que introduziu na trama da sua obra, uma desusada carga de preocupação especulativa de teor expressamente filosófico ou metafísico. (…) Vergílio Ferreira tornou-se o nosso romancista-filósofo por excelência, e a glosa de que em geral é alvo só encontra analogia naquela de que obras como a de Antero e Fernando Pessoa foram – ou são – objeto. A esse retrato de pensador-artista ou artista-pensador, a sua obra Pensar poria, por assim dizer, o seu ponto final, colocando o acento e a motivação profunda de todo um itinerário, nessa missão, digamos, impossível, mas a única que constitui para a humanidade o mais alto imperativo, que não é nem o de se sobreviver, nem de se pensar, mas apenas, pensar.”

Eduardo Lourenço

 

«É quase jovialmente que Vergílio Ferreira reflete sobre a vida, sobre a morte, sobre a arte, o conhecimento, a política, o romance, a humana condição, o próprio pensar o pensamento… São aforismos, são ‘pequenas moralidades’, dirigidas apelativamente a um narratário não especificado, por vezes coloquialmente… Em suma: são múltiplos os recursos de Vergílio Ferreira para explanação do seu Pensar. É evidente que Vergílio Ferreira se revela aqui com alguma intelectual arrogância – é o seu direito. (…) Magnífica arrogância.»

Fernanda Botelho, Colóquio Letras


Vagão J

 

Vagão J retrata a miséria social e a categorização da sociedade são motivos para que o livro conste na lista censurados pelo Estado Novo.

Vagão J., de 1946, cuja origem do título é mantida em mistério até aos últimos parágrafos do romance, é o romance neo-realista, dos poucos que Vergílio Ferreira escreveu. É a história da família Borralho, família representativa do patamar mais baixo da escala social, numa vila rural no princípio do século XX. A obra transmite uma realidade sem qualquer encenação artificial da cruel forma de viver desses tempos, das assimetrias das classes sociais, dos padrões de comportamento e da psicologia individual e colectiva representativa desses tempos. Mas os Borralho também são “uma família de degenerados, sem escrúpulos, sem carácter, sem dignidade”, escreveu o Capitão Borges Ferreira no seu relatório de censura. “O romance gira todo em volta destas misérias sociais (...) sou de opinião que o livro não deve ser publicado”.

in FNAC

 

Proibição do livro “Vagão J”. 1947-02-26 / 1953-04-07. Obra da autoria de Vergílio Ferreira. Foram inutilizados mil e cem exemplares. Portugal, Torre do Tombo, Secretariado Nacional de Informação, Censura, cx. 732, n.º 1.

 

Auto de Censura de Vagão J

 

Destruição de Vagão J

 

 

Outros livros do autor:

                 Promessa     Carta ao futuro     Nítido nulo 

                 Cântico final     Rápida, a sombra     O caminho fica longe

                 Na tua face     Conta-corrente     Alegria breve 

                  Cartas a Sandra     A estrela     Diário inédito

                  Do mundo original     Contos     Signo sinal

 

 

A literatura de Vergílio Ferreira assenta na corrente filosófica existencialista, na dimensão estética da existência e na experiência de diferentes modos de arte, entre os quais se destaca, naturalmente, a literatura.

O Existencialismo é um Humanismo é um livro essencial para compreender o existencialismo. A edição portuguesa conta o prefácio de Vergílio Ferreira.

 

O existencialismo é um Humanismo

 

 

“O pensador existencialista preocupa-se com problemas antropológicos da existência humana; o filósofo existencial aceita esta designação (…)

Mas falar do homem como tema fundamental do Existencialismo (como da fenomenologia) é pôr em relevo o que centra tudo quanto dele dissemos ou dissermos – precisamente o problema da liberdade. Este problema, porém, é a questão fundamental de toda a obra de Sartre. Ocupemo-nos dela pois."

in Prefácio de O Existencialismo é um Humanismo

 

  

Vergílio Ferreira

 

O escritor Vergílio Ferreira deu nome a um Agrupamento de Escolas, em Lisboa, uma Biblioteca Municipal, em Gouveia, e um Prémio Literário, instituído pela Universidade de Évora.

 

Logótipo do centenário de Vergílio Ferreira

 

 

 

O essencial sobre... Vergílio Ferreira

 

No âmbito das comemorações do centenário de Vergílio Ferreira, a Imprensa Nacional dedicou-lhe um «Essencial sobre…», de autoria de Helder Godinho, do qual deixamos aqui um excerto:

“ (…) Além da poeticidade e profundidade do discurso vergiliano, a beleza da sua obra tem também a ver com a universalidade profunda do conjunto da sua problemática. O fundo heroico da arquipersonagem é, certamente, um deles.“

 

 

 

 

 

 

 

 

Postal comemorativo do centenário

Postal comemorativo dos 100 anos do nascimento de Vergílio Ferreira

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2020 © Plano Nacional de Leitura
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