Um livro por semana
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Um livro… magistral
8.maio.2021

 

Os irmãos Karamázov

 

O último grande romance de Dostoiévski (1879-1880), terminado pouco tempo antes da sua morte, em São Petersburgo (1881) vem, juntamente com as obras Crime e Castigo (1866), O Idiota (1868) e Os Possessos (1871-72), provar que a fase final da sua vida foi, sem dúvida, a mais produtiva. Os Irmãos Karamázov é uma das mais geniais criações literárias de todos os tempos. Analista rigoroso do comportamento humano, Dostoiévski traz à tona o próprio sentimento de culpa pelo assassínio do pai. O autor debate de uma forma sublime as infindáveis dicotomias da natureza humana, revelando uma inquietação que é já a do homem moderno.

in sinopse da Editorial Presença.


Nina Guerra e Filipe Guerra foram os vencedores do Prémio Especial Tradutor - Prémios de Edição LER/Booktailors 2012.

 

 

Conheça a intriga do grande clássico da literatura pela voz de Carlos Vaz Marques no podcast O Livro do Dia

  


 

1.ª edição de Os irmãos Karamázov

 Frontispício da primeira edição do romance Os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoiévski de novembro de 1880.

 

 

Fiódor Dostoiévski

 

 

“Fiódor Dostoiévski nasceu em Moscovo, em 1821, no seio de uma família modesta. Foi um dos grandes precursores da mais moderna forma do romance - a par de Emily Brontë, por exemplo -, uma forma depois representada por nomes como Marcel Proust, Virginia Woolf e James Joyce. Filho de um médico militar, aos 15 anos é enviado para São Petersburgo, onde faz o percurso da Escola Militar de Engenharia. É nesses anos que a sua vocação literária desperta, ao entrar em contacto com escritores russos e com a obra de Byron, Victor Hugo e Shakespeare. A sua estreia na literatura acontece em 1846 com Gente Pobre. Três anos depois, é condenado à morte, por implicação numa suspeita conjura revolucionária. A pena acaba comutada para trabalhos forçados na Sibéria, e Dostoiévski é amnistiado em 1855. A partir desta data, inicia-se o período de actividade literária mais intensa com a publicação de algumas das suas obras mais importantes, entre elas Crime e Castigo (1866), O Jogador (1866), O Idiota (1869), Demónios (1872) e Os Irmãos Karamázov (1879-1880). Fiódor Dostoiévski faleceu em São Petersburgo, em 1881.”

in Editorial Presença

 

  

 

 

“É possível que alguns leitores pensem que o meu jovem era de índole doentia, extática, pobremente desenvolvida, um sonhador pálido, um homenzinho descorado e macilento. Pelo contrário, Aliocha era  nesse tempo um jovem de dezanove anos, esbelto, de faces coradas, olhar luminoso, que irradiava saúde. Era até muito bonito nesse tempo; airoso. de estatura mediana, cabelo castanho-escuro, rosto oval regular ainda que um pouco longo, uns olhos cinzento-escuros brilhantes, bastante afastados, e aparentemente muito sereno. Dirão talvez que as faces coradas não impedem nem o fanatismo, nem o misticismo; mas a mim parece-me que Aliocha era até mais realista do que  qualquer outro. Oh, é claro que no mosteiro ele acreditava inteiramente em milagres, mas, em meu entender, os milagres nunca perturbam um realista. Não são os milagres que levam um realista à fé. Um verdadeiro realista, se não é crente, achará  sempre em si a força e a capacidade para não acreditar no milagre; mas se o milagre  surgir à sua frente como um facto incontestável, mais depressa desconfiará dos seus sentidos do que admitirá o facto.  E ainda que o admita, admite-o como um facto natural, simplesmente desconhecido para ele até então. Para o realista, a fé não nasce do milagre; é  o milagre que nasce da fé. Se o realista crê uma vez, precisamente pelo seu realismo terá de admitir até o milagre. O apóstolo Tomé afirmou que não acreditaria antes de ver, e quando viu disse: «Meu Senhor e meu Deus.» Foi o milagre que o fez acreditar? O mais provável é que não, mas que tenha acreditado apenas porque queria acreditar, e até talvez já acreditasse no íntimo do seu ser, mesmo quando disse: «Só acredito depois de ver»

in Os Irmãos Karamázov, Relógio D´Água.



 


“Há apenas cinco dias, num círculo social local, principalmente de senhoras, ele declarou solenemente, durante uma discussão, que não havia absolutamente nada em todo o mundo que  obrigasse as pessoas a amarem os seus semlhantes, que não  existe nenhuma lei da natureza para que o homem ame a humanidade e que se até agora houve e há amor na terra não é devido a nenhuma lei natural, mas apenas porque as pessoas acreditavam na sua imortalidade. Ivan Fiódorovitch acrescentou  entre parênteses que nisso  consiste precisamente toda a lei natural, de tal modo  que, se eliminarmos  da humanidade a fé na sua imortalidade, de imediato se esgotará nela não apenas o amor, mas toda a força viva que permite continuar a vida no mundo. Mais do que  isso: nada será já imoral, tudo será permitido até a antropofagia. Mas isto ainda não é tudo. Ele terminou  com a afirmação de que para cada indivíduo em particular, como nós agora, por exemplo, que não acredita nem em Deus, nem na imortalidade, a lei moral da natureza devia mudar imeditamente para o exacto contrário da anterior lei, religiosa, e que o egoísmo, levado mesmo até ao delito, não só devia ser permitido ao homem, mas ser mesmo reconhecido como necessário, como a mais racional e até  quase a mais nobre saída da sua  situação.“

in Os Irmãos Karamázov, Relógio D´Água.

  

Fiódor Dostoiévski

“(…) Nunca procures recompensa, porque já é grande a tua recompensa neste mundo: a tua alegria espiritual, que só o justo obtém. Não temas os grandes nem os poderosos, mas sê sábio e sempre digno. Conhece a medida, conhece os prazos, estuda isso. E, ao ficares só, reza. Aprende a amar a terra, ajoelhar-te nela e a beijá-la. Beija a terra e ama-a incansavelmente, insaciavelmente, ama todos, ama tudo, procura no amor esse êxtase e esse frenesi. Molha a terra com as lágrimas da tua alegria e ama essas tuas lágrimas. E não tenhas vergonha desse frenesi, preza-o, pois é uma dádiva divina, grande, que não é dada a muitos, mas só aos eleitos.“

in Os Irmãos Karamázov, Relógio D´Água.

 

 

Lee J Cobb, Yul Brynner e William Shatner em Os Irmãos Karamázov (1958)

 

 

Em Os Irmãos Karamázov, o seu último trabalho de ficção, publicado em 1879, Dostoiévski coloca ao leitor grandes questões existenciais - qual poderá ser a conduta ética do ser humano, uma vez condenado ao livre-arbítrio e sem um Deus que dite a distinção entre o Bem e o Mal? 

 

Em 2021 festeja-se o bicentenário do nascimento do grande escritor Dostoiévski (1821-1881). Na página web 200 years Dostoiévski poder-se-á encontrar informação sobre as comemorações que ocorrem por todo o mundo.

  

200 anos de Fiódor Dostoievski

 

 

O XVIII Simpósio Internacional de Dostoiévski será realizado em Nagoya, Japão, de 4 a 8 de março de 2022. O tema do Simpósio é "150 Anos de Demónios”.

 

Conversations with Dostoiévsky é um  blogue  que  oferece ao leitor um encontro imaginário com Dostoiévski  para uma interessante conversa sobre a  fé, a Bíblia, Jesus Cristo, a Rússia, o Judaísmo, Deus e  a imortalidade, fazendo incursões pela literatura. As conversas serão divulgadas semanalmente durante a primavera e o verão de 2021.

  

 

Museu Dostoievski, São Petersburgo

 Dostoiévsky Literary Memorial Museum, em São Petersburgo

 

  

Museu Dostoievski, São Petersburgo

 

 

No Museu é possível encontrar vários objetos originais, tais como uma página manuscrita do livro Os Irmãos Karamázov e fotografias de família.

 

 

Outros livros de Fiódor Dostoiévski:

 O idiota     Crime e castigo     o duplo 

 O jogador     Humilhados e ofendidos     Noites brancas

 Recordações da casa dos mortos     O adolescente     Notas de inverno sobre impressões de verão 

 

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