Um livro por semana
Um livro por semana
Um livro… epistolar. Ode à LÍNGUA PORTUGUESA.

 

Com o mar por meio

 

«Desta ilha de Lanzarote, com o mar por meio, mas com braços tão longos que alcançam a Bahia, nós, e os mais que cá estão, parentes e amigos, admiradores todos, vos enviamos muito saudar e votos valentes contra as coisas negativas da vida.

A amizade entre Jorge Amado e José Saramago teve início quando os dois já iam maduros nos anos e na carreira literária. O vínculo tardio, porém, não impediu que os escritores criassem um forte laço, estendido às suas companheiras de vida, Zélia Gattai e Pilar del Río.

Reunida neste livro, a correspondência inédita entre os dois mestres da língua portuguesa vem finalmente a público. São cartas, bilhetes, cartões, faxes e mensagens várias, enviadas ao longo de seis anos, com uma rica troca de ideias sobre questões tanto da vida íntima como da conjuntura contemporânea, sempre com afeto e bom humor.

Ilustrado com fac-símiles e fotos raras, Com o mar por meio é um documento que ilustra uma bela amizade - esse «manjar supremo» da vida - e aproxima o leitor do universo particular de dois dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa.»

In  Com o mar por meio.  Uma amizade em cartas -  Jorge Amado  e José Saramago (2107). Companhia das Letras

  

 

José Saramago

 

“Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga. As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou. (…)
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de Junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo ReisO Evangelho segundo Jesus CristoEnsaio sobre a CegueiraTodos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo. No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.”

In portal Companhia das Letras

 

 

Jorge Amado

 

 

“Jorge Amado nasceu em Pirangi, Baía, em 1912 e faleceu a 6 de Agosto de 2001.
Viveu uma adolescência agitada, primeiro na Baía, no início dos seus estudos, depois no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e começou a dedicar-se ao jornalismo. Em 1935 já se tinha estreado como romancista com O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), seguindo-se Terras do Sem Fim (1943) e S. Jorge dos Ilhéus (1944). (…)
Os problemas sociais orientam a sua obra, mas o seu talento de escritor afirma-se numa linguagem rica de elementos populares e folclóricos e de grande conteúdo humano, o que vai superar a vertente política. A sua obra tem toques de picaresco, sem perder a essência crítica e a poética. Além das já citadas, referimos, na sua vasta produção: Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), Seara Vermelha (1946), Os Subterrâneos da Liberdade (1952). Mas é com Gabriela, Cravo e Canela (1958), Os Velhos Marinheiros (1961), Os Pastores da Noite (1964) e Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966), que o romancista põe de parte a faceta politizante inicial e se volta para temas como a infância, a música, o misticismo popular, a turbulência popular e a vagabundagem, numa linguagem de sabor poético, humorista, renovada com recursos da tradição clássica ligados aos processos da novela picaresca. (…)
Foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1994.”

In portal Companhia das Letras



Carta

 

 

 

Carta

“ESTA MENSAGEM VAI  NA LETRA GORDA PARA QUE NÃO SE PERCA NOS AFAZERES DA TRANSMISSÃO  NEM UM SÓ SINAL DA NOSSA AMIZADE, DESTE CARINHO TÃO BONITO QUE VEIO ENRIQUECER DE UM SENTIMENTO FRATERNO UMA RELAÇÃO NASCIDA TARDE, MAS QUE, EM LEALDADE E GENEROSIDADE, PEDE MEÇAS À MELHOR  QUE POR Í SE ENCONTRE.
FOI LENDO EL PAÍS DE ONTEM QUE PILAR VIU QUE HOJE ERA O TEU ANIVERSÁRIO.VIVEREMOS POIS ESTE DIA COMO O DE UMA FESTA QUE TAMBÉM É NOSSA. POR PARTE DA ZÉLIA, JORGE, IMAGINAI QUE SÃO NOSSOS DOIS DOS LUGARES À VOSSA MESA E QUE DELES NOS LEVANTAREMOS, À HORA DOS BRINDES, PARA SAUDAR EM JORGE AMADO NÃO SÓ O GRANDE ESCRITOR, MAS TAMBÉM O HOMEM DE CORAÇÃO E A DIGNIDADE EXEMPLAR DE UMA VIDA.

Abraços fortíssimos,
José

Felicidades. Um beijo muito forte para os dois.
Pilar»

 

 

Paloma Jorge Amado conta do processo de organização das cartas trocadas entre Jorge Amado e José Saramago, reunidas no livro "Com o Mar por Meio".

 

 

“Querido José

De Espanha, Alemanha, Itália, Argentina e outras distâncias pedem-me entrevistas respondendo sempre o mesmo: se o prêmio este ano for dado à língua portuguesa, o romancista José Saramago tem 45% de possibilidades; o poeta brasileiro João Cabral tem 40%; Torga, 14%; e Jorge, 1%. Segundo pesquisas realizadas às vesperas das eleições brasileiras e da concessão do Nobel – veja entrevista anexa.
Quanto às eleições brasileiras, tudo indica que o Fernando Henrique Cardoso será  eleito  no primeiro turno  com maioria absoluta dos votos válidos.
Acabo de receber um pequeno livro de Rui Simões, Depoimentos sobre Saramago. Já o tens?

Beijos de Zélia e meus para Pilar, e abraços afetuosos para ti do amigo.”



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“Querido Jorge, querida Zélia,

Finalmente o Camões  para quem tão esplendidamente tem servido a língua dele! Será preciso dizer que nesta casa se sentiu como coisa nossa esse prémio? Que pessoalmente me sinto orgulhoso  do comportamento dos portugueses que passaram  pelos júris, e em especial os de agora? Sirva isto de compensação para as decepções e as amarguras que outros causaram a Jorge. Tantas vezes estamos ou passamos por Madrid, e não tivemos o gosto de assistir  ao acto da Cada de la América. Pela descrição que Juan Cruz dele faz em El País, deve ter sido do mais saboroso. Este fax vai para o Brasil, porque não temos o número de fax de Paris. Esperámos até hoje porque vocês tinham dito que estariam em Espanha até ao dia 1. Portanto, telefonámos ontem e hoje para a rue Saint-Paul, mas ninguém respondeu. Queríamos comunicar a nossa alegria de viva voz. Assim, as palavras, para chegarem onde vocês neste momento estão, devem precisar de dar meia-volta ao mundo, mas nem por isso as tereis menos carinhosas.

Parabéns, aplausos, abraços,
Muchos,muchos,

Pilar
José

(P.S.: Afinal, Pilar tinha o número do fax de Paris!
2.º P.S.: Pelo sim, pelo não, vai também para a Bahia)

 

 

Carta

 

 

“De Zélia e Jorge Amado
Para Pilar e José Saramago

Parabéns, querido José, pelos prêmios recentes, o inglês e o português. Nós estamos contentes da vida, sabemos que outros virão ainda maiores.
O telefonema de Estocolmo a que se refere Ballester para nos honrar a todos nós que escrevemos a Língua portuguesa, melhor dito as línguas portuguesas.

Beijos afetuosos para Pilar dos amigos
Zélia e Jorge“

 

 

 

 

O jornal Folha Vitória publica uma notícia a propósito do lançamento do livro Jorge Amado e José Saramago - Com o Mar Por Meio.

 

 

Jorge Amado e José Saramago

 

 

Alinhamento dos astros, um artigo do jornal Tornado, sobre o encontro e os livros de Caetano Veloso, José Saramago e Jorge Amado.

  

 

Caetano Veloso – Língua


Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E (xeque-mate) explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet, Moon, de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
E Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana

(Será que ele está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô
Você e tu
Lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro!
Ma'de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
I like to spend some time in Mozambique
Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem

Caetano Veloso

 

 

Outros livros dos autores:

 O ano de 1993     Gabriela, cravo e canela     Deste mundo e do outro 

 Capitães da areia     O conto da ilha desconhecida     O país do Carnaval

 Memorial do convento     A maior flor do mundo     O gato malhado e a andorinha Sinhá 

 

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