Um livro por semana
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Um livro… uma viagem atormentada.
17.julho.2021

 

O mel do leão

 

 

«A aventura deste homem milenar, cuja tragédia, à semelhança de Édipo, foi a de não conseguir suportar um destino demasiado grandioso a si imposto, toca-nos diretamente no nosso próprio âmago.»

The Independent

 

«Há poucas outras histórias na Bíblia com tanto drama e ação, tanto fogo de artifício narrativo e emoção pura, como os que encontramos no conto de Sansão: a batalha com o leão; as trezentas raposas a arder; as mulheres com quem dormiu, e a única que amou; a traição por parte de todas as mulheres da sua vida, desde a sua mãe Dalila; e, no final, o seu suicídio homicida, quando fez desabar a casa sobre si próprio e três mil filisteus. Contudo, para além da fera impulsividade, do caos e do barulho, podemos entrever uma história de vida que é, no fundo, a viagem atormentada de uma alma isolada, solitária e turbulenta, que nunca encontrou, em lado algum, um verdadeiro lar no mundo, cujo corpo era ele próprio um duro lugar de exílio.»

sinopse de O Mel do Leão (2019) Elsinore

                                   


David Grossman

 

 

“David Grossman nasceu em 1954 em Jerusalém, filho de um taxista, mais tarde transformado em livreiro, que lhe transmitiu o amor pelos livros. Estudou filosofia na Universidade de Jerusalém, cumpriu o serviço militar de 1971 a 1975, e trabalhou como jornalista na rádio nacional durante 25 anos, até ser despedido por se ter recusado a abafar uma notícia sobre a criação de um Estado declarado pela Autoridade Palestiniana. A escrita chegou pouco depois de conhecer a mulher, Michal. Grossman perdeu o seu filho Uri, na Guerra Israel-Libanesa de 2006. O luto por essa perda foi tratado na literatura no seu livro Fora do Tempo. (…)”

in Portal da Literatura

 

 

 

David Grossman - Como a literatura transformou minha vida

 

 

“Há um ponto na história de Sansão – o momento em que ele adormece no colo de Dalila – que parece absorver e condensar o conto inteiro. Sansão recua para o seu eu acriançado, quase infantil, desarmado da violência, da loucura e paixão que confundiram e arruinaram a sua vida. Esse é, claro está, também o momento em que é selado o seu destino, pois Dalila tem nas mãos o seu cabelo e a navalha, e os filisteus, lá fora, já saboreiam a vitória. Mais um momento, e os seus olhos ser-lhe-ão arrancados, e o seu poder será extinto.  Em breve, será metido na prisão, e os seus dias chegarão ao fim. No entanto, é agora, quiçá pela primeira vez na sua vida, que encontra repouso. Ali, no próprio âmago da cruel perfídia, que ele certamente desde sempre esperou, é-lhe concedida, finalmente, uma perfeita paz, uma libertação de si próprio e do tempestuoso drama da sua vida.“

in O Mel do Leão

 

 

Sansão e Dalila 

 Sansão e Dalila, (1609) óleo sobre madeira, Rubens, National Gallery, Londres

 

O mito de Sansão é revisitado pelo escritor David Grossman, em O mel do leão, um livro que apresenta o guerreiro bíblico em toda a sua complexidade, projetando-o no mundo de hoje. “Uma viagem fascinante e controversa pela história e psicologia de uma das personagens mais significativas da Bíblia. “

Afinal, que era Sanção? O que simboliza?

   

 

 


“«Que coisa há mais doce do que o mel?», respondem-lhe os filisteus, «e que coisa há mais forte do que o leão» Aqueles que respondem, agora, não são somente os «companheiros», mas os «homens daquela cidade». Por outras palavras, não só o seu segredo íntimo foi revelado, como também se espalhou, para além da festa do casamento, por toda a cidade de Timnata, passando a ser do conhecimento geral entre os seus habitantes. Sansão espuma de fúria: «Se vós não lavrásseis com a minha novilha, nunca teríeis descoberto o meu enigma.» - ruge ele, lançando-lhe uma acusação carregada de insinuações sexuais. (Embora, mesmo na sua fúria, consiga fazer-se poético). Está enraivecido, é claro, cheio de natural irritação humana, contra os companheiros, que, no fim conseguiram ser mais espertos do que ele; mas o que mais lhe dói é a deslealdade da sua mulher, pois, pela primeira vez na vida, tinha-se atrevido a trazer outra pessoa para perto de um lugar interior que, até então, tinha pertencido somente a si. Um lugar de doçura dentro da força bruta, e foi, logo aí, que ele foi traído!

(…)

Pois é provável que, ao ouvir dos lábios deles as palavras «Que coisa há mais doce do que o mel? e que coisa há mais forte do que o leão», Sansão sinta que o segredo que ele guarda tão encarecidamente, o segredo que exprime a sua condição  de único, de escolhido, ficou conspurcado e diminuído, quase transformado em gracejo, em algo que pode ser reduzido a uma piada curta e superficial que soa como  um tinido; transformando, instantaneamente, um tesouro em moedas desgastadas, em vulgar boato, que qualquer « habitante da cidade» pode transmitir  aos seus compinchas, mesmo que não compreenda realmente aquilo que está escondido dentro dele.

(…) uma coisa é certa; que uma pessoa se sentirá sempre, sempre, profundamente humilhada, quando o segredo é passado de um para outro entre estranhos, que não o compreendem, que são indignos.  Foi isso, seguramente, que Sansão sentiu, quando ouviu dos «companheiros», regozijando-se com a sua aflição, a resposta à sua adivinha. “

in O Mel do Leão

 

 

 O mito de Sansão é revisitado pelo escritor israelita David Grossman, em "O mel do leão". Leia o artigo no jornal Diário de Notícias.   

 

"Nunca tinha visto tanta violência e brutalidade entre judeus e árabes", afirmou David Grossman  numa entrevista ao jornal "La Tercera", do Chile, partilhada pelo jornal Expresso.

 

Outros livros de David Grossman:

Até ao fim da terra Ver: Amor Um cavalo entra num bar A vida brinca comigo

  

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