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7.novembro.2020

 

O último cais

 

“O Diário de Bordo de Marcos Vaz de Lacerda, registo para uso pessoal onde a minúcia alterna com a linguagem telegráfica do aborrecimento e as datas se distanciam sobre longos dias sem menção, chegou-me às mãos cem anos depois, quando a casa do Vale Formoso ficou desabitada pela morte de Carlota. Diário de Bordo estava dentro da escrivaninha que Carlota me legara, uma bela peça italiana que a mulher de Marcos herdara dos avós e devia ter duzentos anos. (…) Carlota interessara-se por mim, contara-me incansavelmente histórias e memórias desse tempo donde eu provinha afinal, desse lado de lá do tempo onde mergulhava a minha própria individualidade, a minha essência, a minha alma. Carlota recordava-se de Marcos numa época em que ele era já um velho senhor tranquilo, as barbas muito brancas, passava horas sentado num cadeirão georgian onde mais ninguém ousava sentar-se, ouvindo Enrico Caruso cantar ópera na enorme grafonola de campânula. Marcos vivia, então, na Penha, numa casa sobranceira ao porto, instalara cadeiras de deck na varanda, estendia-se ao sol olhando os barcos através dos seus potentes binóculos, velho marinheiro na ponte de um navio ancorado, à espera de chegar ao seu último cais.“

 

Helena Marques

 

"De famílias madeirenses, Helena Marques (Carcavelos 17 de maio de 1935 - 19 de outubro de 2020) foi jornalista durante trinta e seis anos, iniciou a sua carreira no Diário de Notícias do Funchal e terminou-a no Diário de Notícias de Lisboa, onde foi diretora-adjunta (1968-1992). Entretanto, foi redatora de vários outros diários, nomeadamente A CapitalRepública e A Luta. Publicou o seu primeiro livro, O Último Cais, em 1992. Muito aclamado, recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Revista Ler/Círculo de Leitores, o Prémio Máxima de Revelação, o Prémio Procópio de Literatura e o Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa.

Seguiram-se os romances A Deusa Sentada (1994), Terceiras Pessoas  (1998) e Os Íbis Vermelhos da Guiana  (2002), e o livro de contos Ilhas Contadas  (2007). A sua obra encontra-se traduzida em alemão, italiano, castelhano, grego, romeno e búlgaro. O Bazar Alemão  (2010) foi o seu último livro.” (in Wook)

 

O Último Cais (BIS, 2009) é um texto envolvente, sedutor, pela sua aparente simplicidade. Pela sua beleza. Pela sua força, tecida de pequenas fragilidades, de pequenas fragâncias de pequenas cintilações musicais.“ – afirmou a escritora Maria Teresa Horta.

 

 

O último cais

 

“As mulheres detinham um espaço privilegiado nas histórias de Carlota. E as que mereciam esse espaço acabavam sempre mais tarde ou mais cedo, por ser qualificadas de insubmissas. As mulheres obedientes, cordatas, respeitadoras da hierarquia masculina e severas transmissoras da inquestionada observação do seu lugar e das suas limitações, não entravam nas memórias de Carlota. Se eu perguntava pela tia A, pela prima B ou pela avó C, ela limitava-se a uma síntese lacónica e cáustica, inesperadamente grosseira, de letal desprezo:” Era uma porcaria de gente”. Apenas interessavam a Carlota as mulheres de fibra e coragem, só respeitava e recordava as insubmissas, na sua boca tratava-se de uma palavra majestosa que conferia a raras pessoas com a solenidade e o cerimonial com que se impõem as condecorações.“

 

Livros da autora 

O bazar alemão    Ilhas contadas    Terceiras pessoas

A deusa sentada    Os íbis vermelhos da Guiana    O último cais 

 

Helena Marques morre 19 de outubro de 2020, aos 85 anos.

 

Pedro Sobral, da editora Leya, recorda Helena Marques como uma mulher "Intelectualmente brilhante, afável, extraordinariamente simpática e muito cordial", ouça o testemunho.

 

A notícia no Jornal Expresso.

 

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