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5.setembro.2020

Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos

 

Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos (Companhia das Letras, 2017) é uma antologia de poesia organizado por José Mário Silva que esclarece que os cem poemas reunidos “ não serão os melhores de um século, strictu sensu, mas fixam a resposta do antologiador, no momento em que escreve estas palavras à pergunta “Quais são, para si, os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos?
A decisão mais difícil, ao definir os critérios desta antologia, prendeu-se com a representatividade. (…) gigantes como como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Herberto Helder teriam de estar muito mais representados do que um poeta jovem com apenas dois ou três livros na bibliografia. (…)
A baliza temporal do século implicou a exclusão de poemas publicados pela primeira vez em livro antes de 1917. Fora esse critério, não houve quaisquer preocupações com a cronologia dos textos. (…).
A que leitores se destina esta antologia? Idealmente, a todos os leitores. “

 

“O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue …
O melhor é dormir …
Fecho a antologia mais cansado do que o mundo –“

Álvaro de Campos 

 

Poema - Convite à Senhora Bishop  

Convite à Senhora Bishop

 

Almada Negreiros | A Flor

 

 

Nuno Júdice | A luz de Lisboa

A luz atravessa o quarto entre
as duas janelas, e é sempre a mesma luz, embora
de um lado seja o poente – onde está o sol, agora – e do outro
o nascente – onde o sol já esteve. No quarto
juntam-se poente e nascente, e é esta
luz que confunde o olhar, que não sabe em que
hora se situa a luz primeira. Então, olho a linha
que percorre o espaço entre as duas janelas,
como se não tivesse princípio nem fim; e
o que faço é puxar essa linha para dentro
do quarto, e enrolá-la, como se me
pudesse servir dela para atar as duas extremidades
do dia ao meio-dia, e deixar que o tempo fique
parado entre duas janelas, a poente
e a nascente, até que o fio se volte
a desenrolar, e tudo
recomece.


Maria Teresa Horta | Auto-Retrato


 Cristovam Pavia | Prelúdio

Levanta-se da rocha a flor esmagada
Mais dura do que a rocha e cristalina.
Raízes, caule, pétalas, angústia.
Raízes para sempre ali cravadas,
Caule verticalmente inexorável,
Pétalas miraculosas: pura água.
Minhas mãos são chagas,
Para te colher…
Minhas mãos são chamas,
Pedaços de gelo…
Levanta-se da rocha a flor esmagada.

 

 

 

Ana Hatherly | A verdadeira mão

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

 

Alexandre O'Neill | Um Adeus Português

 

 

Mário Cesariny | You Are Welcome to Elsinore

 

 

Ruy Belo  | Oh as casas as casas as casas

 

 

Ana Luísa Amaral | Comuns formas ovais e de alforria: ou outra (quase) carta a minha filha

Foi de repente,
eu semi-reflectida por janela oval:
uma emoção que me lembrou o dia
em que disseste inteiro o nome do lugar onde vivíamos
sem lhe trocar as letras de lugar
No céu visto daqui,
desta janela oval e curta de avião,
mais de vinte anos foram
por sobre a linha azul daqueles montes
e esse recorte puro
dos verbos conjugados no presente errado,
mas as palavras certas
Ainda hoje,
não me é fácil falar-te em impiedade,
ou nisso a que chamamos mal,
e que existe, e emerge tantas vezes
da idiotia mais rasa e primitiva
Dizer-te unicamente destas coisas
neste poema a ti
seria como assaltar a própria casa,
queimar móveis e livros,
matar os animais que como nós a habitam,
estuprar a calma que por vezes se instala
na varanda
Deixo-te só
a desordem maior do coração
sentida há pouco dessa janela oval,
os momentos raríssimos,
como só os milagres se diz terem,
e que às vezes cintilam:
cósmicas cartas de alforria que nos podemos dar,
nós, humanos aqui:
Só isto eu desejava para ti
e nesta quase carta –

 

António Ramos Rosa | Não posso adiar o amor

 

 

 

 Livros & Autores da Antologia

Clepsydra Depois da música O poeta nu Jóquei

O preço das coisas Poesia reunida Poesia completa Uma faca nos dentes

Sonetos Poesia e prosa Cenas vivas A terceira miséria

Ulysses já não mora aqui Retábulo das matérias Poemas quotidianos Geórgicas

  

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